Não há boas evidências pra essa afirmação. O filme apresenta semelhanças que parecem impressionantes quando são contadas rapidamente, mas várias delas não aparecem nos relatos antigos sobre os deuses mencionados. Outras dependem de tradições populares sobre Jesus que nem estão na Bíblia.
Um exemplo é a comparação com Hórus, deus da mitologia egípcia. O filme diz que ele nasceu de uma virgem em 25 de dezembro, recebeu a visita de três reis, teve doze discípulos, foi crucificado e ressuscitou três dias depois. Esse conjunto de acontecimentos, porém, não é encontrado nos relatos egípcios sobre Hórus. Sua mãe, Ísis, é ligada a Osíris, seu pai; não há ali uma história de crucificação seguida de ressurreição como a narrada sobre Jesus.
A comparação também confunde o que a Bíblia diz com o que se tornou tradição mais tarde. Os Evangelhos não informam o dia em que Jesus nasceu. Mateus fala de visitantes vindos do Oriente, mas não diz que eram reis nem quantos eram (Mateus 2:1-12). Por isso, mesmo que outra história mencionasse 25 de dezembro ou três reis, isso não mostraria que os autores bíblicos copiaram esses detalhes.
O mesmo cuidado vale pra astrologia. O filme associa os doze filhos de Jacó e os doze apóstolos aos doze signos do zodíaco. Mas a Bíblia dá razões próprias pra esses números: os filhos de Jacó deram origem às tribos de Israel, e Jesus escolheu doze apóstolos num contexto ligado ao povo de Israel (Gênesis 35:22-26; Mateus 10:1-4; 19:28). Encontrar o mesmo número em dois lugares não prova que uma história veio da outra. Além disso, a Bíblia proíbe a adoração dos astros e critica a confiança em astrólogos (Deuteronômio 4:19; Isaías 47:13-14).
Isso não significa que toda pergunta levantada pelo filme deva ser ignorada. É legítimo perguntar como os Evangelhos foram escritos e que evidências temos sobre Jesus. Mas essas perguntas precisam ser examinadas por meio de fontes e argumentos verificáveis, não de uma lista de coincidências. O apóstolo Paulo, por exemplo, trata a morte, o sepultamento e a ressurreição de Jesus como acontecimentos reais e menciona pessoas que, segundo ele, afirmavam ter visto Jesus ressuscitado (1 Coríntios 15:3-8). Esse testemunho não obriga ninguém a aceitar a ressurreição, mas mostra que ela já era anunciada pelos cristãos desde cedo, não apenas acrescentada a uma história muitos séculos depois.
Quanto à ideia de uma conspiração pra controlar o mundo, algumas passagens bíblicas falam de governantes que se opõem a Deus e perseguem seu povo, especialmente em Daniel, 2 Tessalonicenses e Apocalipse. Cristãos interpretam os detalhes dessas passagens de maneiras diferentes. Em nenhuma delas, porém, há base pra concluir que as alegações específicas de *Zeitgeist* sobre governos, bancos ou acontecimentos modernos foram comprovadas.
Portanto, o filme não oferece uma base confiável pra afirmar que Jesus foi inventado a partir de deuses pagãos. A maneira mais segura de avaliar suas alegações é separar o que os textos bíblicos realmente dizem, o que os relatos antigos sobre esses deuses realmente contam e o que o filme acrescenta às duas histórias.