São dois acontecimentos terríveis, e a Bíblia não pede que a gente ache normal nenhum deles. Ló ofereceu suas filhas aos homens que cercaram sua casa, mas elas não foram entregues à multidão. Mais tarde, as filhas embebedaram o pai e tiveram relações sexuais com ele. Gênesis conta o que aconteceu; não diz que Deus aprovou essas atitudes.
Na primeira ocasião, dois anjos, com aparência de homens, estavam hospedados na casa de Ló, em Sodoma. Homens da cidade cercaram a casa e exigiram que Ló os entregasse pra terem relações sexuais com eles. Ló tentou impedir a agressão, mas então ofereceu suas duas filhas no lugar dos hóspedes (Gênesis 19:1-8). Foi uma proposta cruel e indefensável. Proteger quem estava em sua casa não lhe dava o direito de expor as filhas à violência.
O relato não explica por que Ló fez essa oferta. A importância dada à proteção dos hóspedes naquela época ajuda a entender o conflito que ele enfrentava, mas não justifica sua escolha. Antes que a multidão atacasse alguém, os anjos puxaram Ló pra dentro e impediram os homens de entrar (Gênesis 19:9-11).
Talvez cause estranheza que o Novo Testamento chame Ló de justo. Em 2 Pedro 2:7-8, lemos que ele sofria ao ver a maldade praticada em Sodoma. Isso, porém, não significa que todas as suas decisões foram justas. A própria Bíblia mostra, sem tentar desculpá-lo, uma decisão em que ele falhou gravemente.
O segundo episódio aconteceu depois da destruição de Sodoma. A esposa de Ló havia morrido no caminho, e ele passou a morar numa caverna com as duas filhas. A mais velha disse à irmã que o pai estava velho e que não havia homem com quem elas pudessem ter filhos. Então as duas, em noites diferentes, deram vinho a Ló até embebedá-lo e tiveram relações sexuais com ele. Segundo o relato, ele não percebeu quando elas se deitaram nem quando se levantaram (Gênesis 19:30-36).
A Bíblia nos mostra o que elas disseram, mas não confirma que fossem as únicas mulheres sobreviventes ou que realmente não houvesse homens com quem pudessem se casar. Também não explica tudo o que levou as duas a tomar aquela decisão. O que fica claro é que elas planejaram embebedar o pai pra engravidar. O texto não diz que Ló planejou aquilo com elas; ao mesmo tempo, sua embriaguez faz parte do que tornou o ocorrido possível. Desse episódio nasceram Moabe e Ben-Ami, ligados à origem dos moabitas e dos amonitas (Gênesis 19:37-38).
Então por que Deus permitiu tudo isso? Gênesis não dá uma razão específica. Há uma diferença importante entre Deus permitir que pessoas façam escolhas más e Deus aprovar essas escolhas. No caso da multidão de Sodoma, os anjos impediram a violência contra os hóspedes. No caso da caverna, o relato não descreve uma intervenção semelhante. Isso não transforma o incesto em algo certo nem nos autoriza a afirmar que Deus o quis.
O que podemos dizer com segurança é que a Bíblia não esconde nem os erros graves de pessoas que Deus livrou. Esses acontecimentos nos mostram o dano que uma pessoa pode causar ao tentar resolver uma situação difícil fazendo mal a outra. Não precisamos inventar um motivo secreto de Deus pra reconhecer isso, nem chamar de boa uma atitude que o próprio relato nos dá razões pra lamentar.