Depende do que se quer dizer com “muleta”. Se a pergunta é se as pessoas buscam em Deus ajuda pra enfrentar a vida, a resposta é sim. A Bíblia não esconde isso. Mas, se a ideia é que Deus foi inventado por pessoas incapazes de viver sem um consolo, aí já estamos diante de outra afirmação. Precisar de ajuda não prova que a ajuda seja imaginária.
É verdade que alguém pode acreditar em alguma coisa porque deseja muito que ela seja verdadeira. Isso pode acontecer também com a religião. Mas descobrir por que uma pessoa acredita em Deus não resolve a pergunta principal: Deus existe? Pra responder isso, precisamos examinar os motivos pra crer, não apenas os sentimentos de quem crê. E o mesmo cuidado vale pra quem não acredita: os desejos de uma pessoa podem influenciar qualquer um dos lados.
A fé cristã, além disso, não oferece só ideias agradáveis. Ela ensina que somos pecadores e precisamos mudar; não diz simplesmente que Deus aprova tudo o que fazemos. E Jesus nunca prometeu aos seus seguidores uma vida sem sofrimento. Em João 16:33, ele reconhece que eles enfrentariam aflições. Portanto, chamar o cristianismo de uma forma de fugir das dificuldades não descreve bem o que ele ensina.
Ao mesmo tempo, a Bíblia fala abertamente da nossa necessidade de apoio. Jesus chama os cansados e sobrecarregados a se aproximarem dele (Mateus 11:28-30). Pedro orienta os cristãos a entregar suas ansiedades a Deus porque ele cuida deles (1 Pedro 5:7). E Paulo diz que os cristãos devem ajudar uns aos outros com suas dificuldades (Gálatas 6:2). Não há vergonha nisso. Admitir que precisamos de ajuda é diferente de inventar alguém pra nos ajudar.
Pra fé cristã, o fundamento dessa confiança não é apenas o alívio que ela traz. É Jesus: sua vida, sua morte e sua ressurreição. Paulo chega a dizer que, se Cristo não ressuscitou, a fé cristã perde seu fundamento, por mais reconfortante que pareça (1 Coríntios 15:14-19). Em outras palavras, a pergunta decisiva não é “a fé faz alguém se sentir melhor?”, mas “aquilo em que essa pessoa crê é verdadeiro?”.
Então, a fé em Deus pode ser chamada de “muleta” se isso significar, simplesmente, reconhecer que precisamos dele. O próprio cristão não precisa fingir que é forte o tempo todo; Paulo fala de encontrar força em Cristo justamente quando reconhece sua fraqueza (2 Coríntios 12:9-10). Mas chamar a fé de *muleta imaginária* não demonstra que Deus não existe. Isso precisaria ser discutido pelos fundamentos da fé cristã, e não pela necessidade humana de consolo.