Em Deuteronômio 31:20, Deus não está criticando o peso dos israelitas. Ele está dizendo que, na terra que lhes havia prometido, eles teriam comida em abundância e uma vida próspera. O problema não seria a fartura. Seria o que fariam depois de recebê-la.
Moisés estava perto de morrer, e o povo se preparava para entrar na terra prometida. Deus avisou que os israelitas comeriam, ficariam satisfeitos e, então, se voltariam para outros deuses. A expressão “se fartariam e engordariam” descreve essa situação de abundância. Não quer dizer que todo israelita ficaria rico, nem que engordar fosse um pecado. O alerta era sobre esquecer Deus quando a vida estivesse boa.
Mais adiante, Deuteronômio 32:15 usa uma imagem forte: depois de engordar, Israel “deu coices”. É a ideia de alguém que recebeu tudo de que precisava, mas passou a rejeitar aquele que cuidou dele. O próprio livro já havia explicado esse perigo: quando o povo tivesse boas casas, rebanhos e bens, poderia pensar que havia conquistado tudo sozinho e se esquecer de Deus (Deuteronômio 8:11-18).
Deus mandou registrar esse aviso num cântico para que os israelitas se lembrassem dele quando chegassem os dias de fartura (Deuteronômio 31:19-21). E a história de Israel mostra por que o aviso era necessário. Neemias recorda que o povo desfrutou dos benefícios da terra, mas depois se rebelou contra Deus (Neemias 9:25-26). Oséias resume o mesmo problema: quando tiveram comida e ficaram satisfeitos, seu coração se encheu de orgulho e eles se esqueceram do Senhor (Oséias 13:6).
Portanto, a passagem não ensina que prosperar é errado. Ela ensina que a prosperidade pode se tornar perigosa quando nos faz pensar que já não precisamos de Deus. A resposta não é desprezar as coisas boas que recebemos, mas desfrutá-las com gratidão e continuar fiéis a ele. Essa é também a orientação dada aos cristãos que têm recursos: não colocar a esperança na riqueza, mas em Deus (1 Timóteo 6:17).