Uma afirmação é falseável quando dá pra dizer que tipo de evidência mostraria que ela está errada. Se alguém afirma “todos os corvos são pretos”, encontrar um corvo de outra cor basta pra derrubar a afirmação. Isso não quer dizer que ela *seja* falsa; quer dizer que existe uma maneira de testá-la.
Já uma afirmação infalseável é feita de um jeito que nada poderia contar contra ela. Imagine alguém dizendo que há um animal invisível num quarto, mas que ele não faz barulho, não deixa marcas e não pode ser detectado de nenhuma forma. Por mais que se procure, qualquer resultado pode ser explicado dizendo: “Ele continua lá, só não pode ser percebido.” A afirmação até poderia ser verdadeira, mas não há como verificá-la desse modo. E ser impossível de refutar não é uma prova de verdade.
A Bíblia, como um todo, não é infalseável. Ela fala de pessoas, lugares e acontecimentos. Essas afirmações podem ser examinadas. No centro da fé cristã, por exemplo, está a afirmação de que Jesus morreu e ressuscitou. Paulo não trata a ressurreição como uma ideia que continuaria válida mesmo que nada tivesse acontecido. Ele diz que, se Cristo não ressuscitou, a pregação cristã e a fé dos cristãos perdem seu fundamento (1 Coríntios 15:14-19).
Isso não significa que seja possível repetir a ressurreição num laboratório. Acontecimentos históricos são investigados de outra maneira: examinando testemunhos, documentos e o contexto em que surgiram. Também não significa que toda pergunta sobre a Bíblia tenha uma resposta simples ou que todas as suas afirmações possam ser testadas do mesmo jeito. A existência de uma cidade antiga, por exemplo, pode ser investigada por meio de registros e descobertas arqueológicas. Uma promessa sobre a vida com Deus envolve questões que não se resolvem por esse mesmo método.
É importante separar o que a Bíblia diz da interpretação que alguém faz dela. Se uma interpretação estiver errada, isso não prova automaticamente que a Bíblia esteja errada. Os próprios discípulos de Jesus precisaram corrigir o que esperavam do Messias quando ele lhes falou sobre sua morte e ressurreição (Mateus 16:21-23). Da mesma forma, uma dúvida sobre um detalhe histórico não resolve, por si só, todas as questões sobre Deus ou sobre Jesus. Cada afirmação precisa ser examinada com cuidado.
A Bíblia não pede que aceitemos qualquer alegação religiosa sem pensar. Os bereanos são elogiados por conferir nas Escrituras o que ouviam (Atos 17:11), e os cristãos são orientados a examinar as alegações espirituais (1 João 4:1). Esse cuidado também vale quando avaliamos argumentos *a favor* da Bíblia: não precisamos tratar toda dificuldade como insignificante nem dizer que uma evidência prova mais do que realmente prova.
Portanto, a resposta curta é: ser falseável é poder, em princípio, ser desmentido por evidências; e a Bíblia não é um conjunto de afirmações protegido contra qualquer exame. Ela faz afirmações ligadas à história, especialmente sobre Jesus. Podemos investigá-las com honestidade, distinguindo aquilo que o texto afirma claramente daquilo que nós talvez tenhamos entendido de modo errado.