Uma pessoa pode deixar de se considerar cristã. Ela pode ter participado de uma igreja, afirmado que cria em Jesus e, mais tarde, abandonado a fé. A pergunta mais difícil é outra: essa pessoa era de fato salva por Cristo e depois perdeu a salvação? Sobre isso, cristãos que levam a Bíblia a sério chegam a conclusões diferentes.
Um texto importante nessa conversa é 1 João 2:19. João fala de pessoas que saíram da comunidade cristã e passaram a negar verdades sobre Jesus. Ele diz que a saída delas mostrou que não pertenciam verdadeiramente ao grupo. Por isso, muitos cristãos entendem que quem abandona a fé de modo definitivo nunca teve uma fé verdadeira, mesmo que antes parecesse ter.
Essa interpretação também se apoia nas promessas de que Jesus cuida dos que são seus. Em João 10:27-29, ele fala das suas ovelhas como pessoas que ouvem sua voz e o seguem, e afirma que ninguém pode arrancá-las de suas mãos. Nessa leitura, o cristão verdadeiro pode enfrentar dúvidas, cair em pecado e até passar um tempo afastado, mas Deus o sustentará e o trará de volta.
Outros cristãos entendem que as advertências bíblicas precisam ser levadas em conta de outra maneira. Passagens como Hebreus 6:4-6 e 10:26-29 alertam seriamente pessoas que conheceram a fé sobre o perigo de se afastarem de Cristo. Para esses cristãos, é possível que alguém tenha crido de verdade e depois rejeite a fé. Eles não negam que Deus guarda os seus; entendem, porém, que isso não elimina a possibilidade de uma pessoa abandonar a Cristo.
Então, não é correto tratar a frase “não existe ex-cristão” como se ela resolvesse sozinha toda a questão. A Bíblia afirma com clareza que nem toda profissão de fé é verdadeira e que permanecer em Cristo importa. O ponto de divergência é se alguém que foi realmente salvo pode, depois, deixar de sê-lo.
Também precisamos ter cuidado ao falar de uma pessoa específica. Se alguém hoje diz que não crê mais, sabemos o que ela afirma agora. Não sabemos, com a mesma certeza, tudo o que havia em seu coração antes — nem o que ainda poderá acontecer. Pedro, por exemplo, negou Jesus, mas se arrependeu e voltou a segui-lo (Lucas 22:54-62; João 21:15-19). Uma queda, mesmo grave, não deve ser confundida automaticamente com uma rejeição definitiva.
Por isso, se a pergunta tem a ver com alguém próximo, o melhor não é tentar dar um veredito sobre o passado dessa pessoa. É ouvi-la, levar suas dúvidas a sério e lembrá-la de que o convite de Jesus continua sendo confiar nele.