Os Evangelhos da Infância são escritos antigos que contam histórias sobre os primeiros anos de Jesus e, em alguns casos, sobre o nascimento e a infância de Maria. Eles não fazem parte da Bíblia, apesar do nome “evangelhos”.
É fácil entender por que surgiram. Mateus e Lucas contam o nascimento de Jesus e alguns acontecimentos de sua infância. Depois disso, os quatro Evangelhos dizem muito pouco sobre sua vida até o começo do ministério público. Lucas, por exemplo, relata uma visita de Jesus ao templo quando ele tinha doze anos, mas não descreve como foram seus outros anos de crescimento (Lucas 2:41-52). Os Evangelhos da Infância procuram contar justamente aquilo que os textos bíblicos não contam.
Os dois escritos mais conhecidos são o Protoevangelho de Tiago e o Evangelho da Infância de Tomé. O primeiro se concentra principalmente em Maria, em seu casamento com José e no nascimento de Jesus. O segundo reúne histórias sobre Jesus quando era menino, incluindo milagres e conflitos com outras pessoas. São obras diferentes, de autores diferentes; não foram escritas pelos apóstolos Tiago e Tomé só porque trazem esses nomes. Suas formas mais antigas conhecidas surgiram no século II, bem depois dos acontecimentos que pretendem narrar.
Por que, então, não podemos usá-las pra descobrir como Jesus realmente foi quando criança? Primeiro, porque não temos base para tratar essas histórias como relatos de testemunhas daqueles acontecimentos. Além disso, algumas delas apresentam um Jesus muito diferente daquele que conhecemos nos Evangelhos bíblicos. No Evangelho da Infância de Tomé, por exemplo, o menino Jesus usa seu poder para castigar pessoas que o contrariam. Em Lucas, o episódio de Jesus aos doze anos mostra algo bem diferente: ele reconhece sua relação especial com Deus, mas volta com Maria e José e lhes obedece (Lucas 2:49-51).
É preciso ter cuidado também pra não afirmar mais do que a Bíblia afirma. João chama a transformação de água em vinho, em Caná, de primeiro sinal realizado por Jesus (João 2:1-11). Isso é uma razão para questionar as histórias de milagres feitos por ele na infância, mas o ponto principal é mais amplo: não há fundamento suficiente pra receber esses relatos tardios como parte da história bíblica de Jesus.
Esses escritos ainda têm valor para quem estuda a história do cristianismo. Eles mostram o que algumas pessoas, nos primeiros séculos, imaginavam ou ensinavam sobre Jesus e Maria. Mostrar o que as pessoas pensavam, porém, não é o mesmo que contar o que de fato aconteceu. Pra conhecer a vida e o ensino de Jesus, a referência são os Evangelhos de Mateus, Marcos, Lucas e João, não as histórias acrescentadas mais tarde para preencher os anos sobre os quais a Bíblia diz pouco.