Jesus repete essa expressão seis vezes para mostrar que obedecer a Deus não é só cumprir regras por fora. Ele fala de homicídio, adultério, divórcio, juramentos, vingança e amor ao próximo. Em cada caso, leva seus ouvintes a olhar além do ato visível: Deus também se importa com as intenções, as palavras e a maneira como tratamos as pessoas.
Isso não significa que Jesus estivesse corrigindo um erro na Lei de Deus. Pouco antes, ele diz que não veio acabar com a Lei, mas cumpri-la (Mateus 5:17). O que ele confronta é uma forma limitada de entendê-la, como se bastasse evitar certas ações para estar tudo bem com Deus. E, ao dizer “Eu, porém, lhes digo”, Jesus não se apresenta apenas como mais um mestre dando sua opinião. Ele fala com autoridade própria.
Veja os dois primeiros exemplos. A Lei proibia o homicídio. Jesus mostra que também é preciso levar a sério a ira e as palavras que desprezam outra pessoa (Mateus 5:21-22). Ele não está dizendo que sentir raiva e matar alguém têm as mesmas consequências humanas. Está mostrando que a obediência a Deus não pode ignorar o que acontece no coração. Da mesma forma, a proibição do adultério não trata apenas do ato sexual: Jesus também condena o olhar que alimenta deliberadamente o desejo por alguém que não é seu cônjuge (Mateus 5:27-28).
Nos outros exemplos, ele continua aprofundando a questão. Ao falar de divórcio, mostra que não se deve tratar o casamento como algo descartável (Mateus 5:31-32). Ao falar de juramentos, ensina que nossas palavras devem ser confiáveis sem que precisemos recorrer a promessas solenes pra parecer sinceros (Mateus 5:33-37). A regra conhecida como “olho por olho” estabelecia limites pra punição; Jesus ensina seus discípulos a não fazer da vingança pessoal sua resposta às ofensas (Mateus 5:38-42). E ele vai além da ideia de amar somente quem está perto de nós: manda amar até os inimigos e orar por quem nos persegue (Mateus 5:43-44).
Esse último exemplo ajuda a entender todos os outros. Jesus não está oferecendo uma lista de exigências ainda mais difícil pra que alguém consiga merecer a aceitação de Deus. Ele está mostrando como é a justiça que Deus deseja: uma vida transformada, não apenas uma aparência de obediência. Por isso, ele afirma que a justiça dos seus discípulos precisa ir além da dos escribas e fariseus (Mateus 5:20).
As palavras de Jesus também nos fazem reconhecer que não conseguimos nos declarar justos diante de Deus simplesmente porque evitamos alguns pecados visíveis. Precisamos do perdão e da transformação que vêm dele. A salvação é recebida pela fé, não conquistada pelo esforço de cumprir a Lei; e essa fé produz uma nova maneira de viver (Efésios 2:8-10).
Então, quando Jesus diz “Eu, porém, lhes digo”, ele está chamando seus ouvintes a escutar a Lei à luz da sua autoridade e a perceber o quanto a vontade de Deus alcança mais fundo do que o comportamento que os outros conseguem ver.