Paulo não estava dizendo que família, trabalho ou boas ações não têm valor. Ele estava falando de algo mais específico: nada disso pode fazer uma pessoa ser aceita por Deus, e nada se compara a conhecer Jesus Cristo.
Pra entender por que ele fala de modo tão forte, vale olhar o que vinha acontecendo. Algumas pessoas ensinavam que os cristãos precisavam ser circuncidados para pertencer ao povo de Deus. A circuncisão era um sinal dado aos homens de Israel na antiga aliança. Mas Paulo rejeita a ideia de que esse sinal, ou a obediência à lei de Moisés, pudesse salvar alguém.
Ele tinha motivos pra dizer isso. Se a origem de uma pessoa e sua dedicação religiosa fossem suficientes, Paulo estaria em ótima posição. Ele era israelita, da tribo de Benjamim, tinha sido circuncidado conforme a lei e era um fariseu muito zeloso. Antes, via tudo isso como vantagem diante de Deus. Depois de conhecer Cristo, passou a considerar essas vantagens como perda (Filipenses 3:4-8).
Isso não quer dizer que Paulo desprezava sua origem ou que obedecer a Deus fosse ruim. O problema era confiar nessas coisas para ser considerado justo por Deus. Em Filipenses 3:9, ele explica o que desejava no lugar disso: ser encontrado em Cristo, sem depender de uma justiça própria baseada na lei, mas da justiça que vem de Deus por meio da fé.
Por isso Paulo também usa, no mesmo versículo, uma palavra forte que muitas traduções apresentam como “lixo” ou “refugo”. Ele quer mostrar como até aquilo que parecia mais impressionante em sua vida perdia a importância quando era colocado no lugar de Cristo. Conhecer Jesus não era, pra ele, apenas aprender sobre uma pessoa. Era pertencer a Cristo e receber dele aquilo que Paulo jamais conseguiria conquistar por seus próprios méritos.
E as boas obras? Elas continuam tendo lugar na vida cristã, mas não como pagamento pela salvação. Efésios 2:8-10 apresenta essa ordem: somos salvos pela graça, mediante a fé, e então passamos a viver de uma maneira que agrada a Deus. O próprio Paulo, depois de dizer que considerava tudo como perda, afirma que continuava se esforçando para seguir a Cristo (Filipenses 3:12-14).
Então a resposta é esta: Paulo considerava tudo como perda em comparação com Cristo e como motivo para confiar em si mesmo diante de Deus. Ele deixou de apoiar sua esperança no que era ou no que havia feito, porque encontrou em Jesus algo que não podia obter sozinho: ser aceito por Deus e viver em comunhão com ele.