Na Lei dada a Israel, chamar uma ordenança de “perpétua” significava que ela não valia só praquela ocasião. Ela deveria continuar sendo observada pelo povo, de geração em geração. Mas isso não quer dizer, necessariamente, que aquela prática continuaria sem nenhuma mudança, mesmo depois da vinda de Cristo.
A Páscoa ajuda a entender. Quando Deus libertou os israelitas do Egito, mandou que eles celebrassem aquela noite todos os anos, como lembrança do que ele havia feito (Êxodo 12:14). Não era uma comemoração única: as gerações seguintes também deveriam celebrá-la. Esse é o sentido da ordem no contexto da Lei.
A palavra hebraica muitas vezes traduzida por “perpétuo” pode indicar algo duradouro, cujo término não está em vista naquele momento. Por isso, precisamos olhar pra própria ordenança e pra quem ela foi dada. As regras sobre o serviço dos sacerdotes, por exemplo, eram obrigatórias e contínuas enquanto aquele sacerdócio estivesse em vigor. A palavra “perpétuo” não significava que o sacerdócio de Arão jamais poderia dar lugar a algo maior.
É justamente isso que o Novo Testamento explica. Hebreus diz que Jesus se tornou sacerdote de uma ordem diferente da de Arão e que, com a mudança do sacerdócio, houve também mudança na lei ligada a ele (Hebreus 7:11-12). Os sacrifícios eram repetidos, mas Jesus ofereceu a si mesmo uma vez por todas (Hebreus 10:1-14). Assim, os cristãos não precisam continuar oferecendo animais nem manter o serviço do tabernáculo ou do templo. Isso não significa que as antigas ordens não importavam; significa que elas tinham uma função que se cumpriu em Cristo.
O mesmo princípio ajuda a entender as festas. A Páscoa lembrava a libertação de Israel do Egito. Paulo relaciona seu significado mais profundo à morte de Jesus, a quem chama de nosso cordeiro pascal (1 Coríntios 5:7). E, ao falar de festas e outras observâncias religiosas, ele ensina que elas apontavam pra Cristo (Colossenses 2:16-17).
Portanto, “perpétuo” não queria dizer “opcional até que venha outra ordem”. Para Israel, aquelas ordenanças deviam ser levadas a sério e praticadas continuamente, não apenas uma vez ou por pouco tempo. Mas também não devemos ler a palavra como se ela impedisse Deus de cumprir, por meio de Jesus, aquilo pra que essas práticas apontavam. Para saber como uma ordem da Lei se aplica hoje, não basta encontrar nela a palavra “perpétuo”: é preciso considerar seu contexto e o que o Novo Testamento ensina sobre Cristo e a nova aliança.