A pergunta vem de uma passagem difícil de ler. Em Êxodo 21:20-21, a lei diz que o dono deve ser punido se bater em seu escravo e ele morrer imediatamente. Mas, se o escravo sobreviver por um ou dois dias, o dono não recebe aquela punição, pois o escravo é considerado sua propriedade. O texto não explica por que o dono bateu. Por isso, não dá pra dizer que se tratava necessariamente de uma correção por desobediência.
A resposta mais direta é esta: a lei de Moisés não proibiu toda violência física contra escravos. Ela estabeleceu limites dentro de uma sociedade em que pessoas podiam possuir outras pessoas. Esses limites protegiam o escravo em algumas situações, mas não eliminavam a escravidão nem tratavam o escravo como alguém livre. É importante reconhecer as duas coisas.
O mesmo capítulo mostra que o dono não podia agir sem consequências. Se ferisse gravemente o olho ou o dente de um escravo, teria de libertá-lo (Êxodo 21:26-27). Se o escravo morresse logo depois de ser espancado, o dono seria punido. A passagem, porém, não diz qual seria essa punição; não podemos afirmar que fosse sempre a pena de morte. E a regra sobre a sobrevivência por um ou dois dias continua sendo perturbadora: ela deixa um caso de espancamento sem a punição prevista no versículo anterior.
Outras leis também impunham limites à escravidão em Israel. Êxodo 21:16 condena o sequestro de uma pessoa para vendê-la. Deuteronômio 23:15-16 proíbe entregar de volta ao dono um escravo que tenha fugido e buscado abrigo. Essas regras mostram proteção real, mas não devem nos levar a dizer que todos os maus-tratos eram proibidos. O próprio texto que motivou a pergunta não permite essa conclusão.
Como entender, então, que isso esteja na Bíblia? A lei de Moisés foi dada a um povo que já vivia num mundo com escravidão. Em vez de acabar com essa prática de uma vez, ela a regulamentou. Regulamentar uma situação existente não significa apresentar tudo nela como um ideal moral. Jesus fez uma distinção parecida ao explicar que Moisés permitiu o divórcio por causa da dureza do coração humano, embora esse não fosse o propósito de Deus para o casamento desde o princípio (Mateus 19:8). Isso ajuda a entender como uma lei pode lidar com uma realidade humana sem descrevê-la como a melhor forma de viver. Não prova, por si só, por que cada regra sobre escravidão foi escrita do jeito que foi.
A Bíblia também nos dá motivos para não tratar a posse de pessoas como o ideal de Deus. Ela apresenta os seres humanos como criados à imagem dele (Gênesis 1:27). E, ao orientar os senhores cristãos, o Novo Testamento lembra que eles e seus escravos têm o mesmo Senhor no céu, que não favorece um em prejuízo do outro (Efésios 6:9). Isso não apaga a dificuldade de Êxodo 21. Mas impede que alguém use aquela lei como uma autorização de Deus para espancar pessoas hoje.
Portanto, não precisamos fingir que o texto proíbe o que ele de fato permite, nem chamar de boa a violência que ele regulamenta. Êxodo 21 colocou limites ao poder dos donos de escravos, mas esses limites não eram a liberdade que desejaríamos ver ali. Ler a passagem com honestidade é reconhecer essa tensão e, ao mesmo tempo, olhar para o ensino bíblico mais amplo: nenhuma pessoa perde seu valor diante de Deus por estar sob o poder de outra.