Pode, sim. Em 1 Coríntios 7:12, Paulo não está dizendo: “Agora vou dar uma opinião sem autoridade de Deus.” Ele está fazendo uma distinção: Jesus já tinha ensinado diretamente sobre uma situação de casamento, mas não tinha tratado, de modo específico, da situação que Paulo passa a responder.
O assunto fica mais claro quando acompanhamos o raciocínio do capítulo. Os cristãos de Corinto haviam feito perguntas sobre casamento, e Paulo começa a respondê-las. Ao falar com os casados, ele lembra um ensinamento que já vinha de Jesus: marido e mulher não deviam se separar levianamente. Por isso diz, no versículo 10, que a orientação é “do Senhor”. Jesus havia ensinado sobre casamento e divórcio durante seu ministério na terra (Mateus 19:3-9; Marcos 10:2-12).
Depois, Paulo trata de um caso diferente: uma pessoa se tornou cristã, mas seu marido ou sua esposa não. Se o cônjuge descrente quisesse continuar o casamento, o cristão deveria se separar dele? É nesse ponto que Paulo diz “eu, não o Senhor” (1 Coríntios 7:12). Ou seja, ele não está repetindo uma instrução de Jesus dirigida especificamente a esse caso; ele próprio está dando a orientação apostólica: se o cônjuge descrente aceita continuar vivendo junto, o cristão não deve se divorciar apenas porque o outro não crê (1 Coríntios 7:12-13).
Essa diferença entre *quem já havia tratado diretamente do caso* não é uma diferença entre palavras inspiradas e palavras sem inspiração. Paulo era apóstolo de Cristo, e suas cartas fazem parte das Escrituras. Ele afirma que sua orientação deve ser reconhecida como mandamento do Senhor (1 Coríntios 14:37). Pedro também se refere às cartas de Paulo ao lado das demais Escrituras (2 Pedro 3:15-16). E 2 Timóteo 3:16 ensina que a Escritura é inspirada por Deus.
Isso não significa que toda frase de uma carta precise ser uma citação direta de Jesus, nem que Paulo nunca faça distinção entre uma ordem e um conselho. No próprio capítulo 7, ele indica quando está aconselhando sobre uma situação, em vez de apresentar um mandamento (1 Coríntios 7:25). Levar a inspiração a sério inclui prestar atenção a essas diferenças, não apagá-las.
Portanto, 1 Coríntios 7:12 não é uma exceção à inspiração da carta. Paulo está sendo cuidadoso com a origem da orientação que apresenta: naquele caso, ele não está citando uma instrução que Jesus tenha dado diretamente durante seu ministério terreno. Está respondendo, como apóstolo, a uma pergunta concreta da igreja.