Os escribas eram especialistas na Lei de Moisés, os ensinamentos que Deus havia dado ao povo de Israel. Eles estudavam as Escrituras, explicavam suas regras e ensinavam as pessoas a segui-las. Por isso, tinham grande influência religiosa na época de Jesus. As discussões não aconteciam porque conhecer a Lei fosse algo ruim, mas porque Jesus questionava a maneira como alguns deles a ensinavam e viviam.
O trabalho de escriba não era, por si só, um problema. Esdras, por exemplo, é apresentado como um escriba conhecedor da Lei, dedicado a estudá-la e ensiná-la (Esdras 7:6, 10). No tempo de Jesus, muitos escribas também estavam ligados aos fariseus, um grupo religioso conhecido pelo cuidado em cumprir a Lei. Mas os dois nomes não significavam a mesma coisa: “escriba” dizia respeito ao conhecimento e ao ensino da Lei; “fariseu” identificava o grupo religioso ao qual a pessoa pertencia.
Um dos conflitos aparece em Marcos 7:1-13. Alguns fariseus e escribas criticaram os discípulos de Jesus porque eles não seguiam uma tradição de lavar as mãos antes de comer. Não se tratava apenas de higiene, mas de uma prática religiosa. Jesus respondeu mostrando um problema mais sério: eles defendiam certas tradições humanas enquanto deixavam de lado um mandamento de Deus. Ele deu um exemplo concreto: uma pessoa podia alegar que havia dedicado seus recursos a Deus e, com isso, deixar de ajudar o pai e a mãe. Para Jesus, nenhuma tradição religiosa podia servir de desculpa pra desobedecer a Deus.
Jesus também criticou os escribas que ensinavam os outros, mas não praticavam o que ensinavam. Em Mateus 23, ele denuncia líderes que buscavam reconhecimento das pessoas e davam atenção a detalhes religiosos, enquanto negligenciavam a justiça, a misericórdia e a fidelidade. Isso não quer dizer que os mandamentos não importavam. Quer dizer que obedecer a Deus não é apenas cumprir regras diante dos outros; envolve também tratar as pessoas com justiça e agir com sinceridade.
Essa crítica não deve ser aplicada a todo escriba, como se todos pensassem e agissem da mesma forma. Em Marcos 12:28-34, Jesus conversa com um escriba que reconhece a importância de amar a Deus e ao próximo, e responde a ele de modo favorável. Ainda assim, os Evangelhos mostram que escribas estiveram entre os líderes que se opuseram a Jesus e participaram das decisões que levaram à sua prisão e condenação (Marcos 14:1, 53; 15:1).
Então, a resposta é esta: os escribas eram mestres e intérpretes da Lei de Moisés. Jesus discutia com eles quando colocavam tradições humanas acima do que Deus havia ordenado ou quando exigiam dos outros uma obediência que eles mesmos não praticavam. O problema não era estudar a Bíblia profundamente. Era conhecer seus ensinamentos e, mesmo assim, deixar de viver o que eles pediam.