Jesus foi severo porque aqueles líderes religiosos estavam afastando as pessoas de Deus justamente quando deveriam ajudá-las a conhecê-lo. Eles ensinavam a Lei, mas muitas vezes não viviam o que ensinavam. Exigiam dos outros o que não estavam dispostos a fazer e davam mais importância à aparência de obediência do que à justiça, à misericórdia e à fidelidade a Deus (Mateus 23:3-5, 23). Como eram respeitados pelo povo, seu exemplo tinha consequências graves.
Em Mateus 23:13-36, Jesus denuncia isso por meio de uma série de advertências que começam com “ai”. A primeira mostra o tamanho do problema: eles não entravam no Reino dos céus e ainda dificultavam a entrada de quem queria entrar (versículo 13). Não era apenas uma falha pessoal. A influência deles prejudicava outras pessoas.
Jesus então dá exemplos concretos. Eles se esforçavam pra conquistar seguidores, mas os ensinavam a seguir o mesmo caminho errado (versículo 15). Criavam regras complicadas sobre quais juramentos precisavam ser cumpridos, perdendo de vista que não se pode tratar um compromisso diante de Deus como um jogo de palavras (versículos 16-22). Eram cuidadosos até com o dízimo de pequenas ervas, mas deixavam de lado o que Jesus chamou de mais importante na Lei: justiça, misericórdia e fidelidade. Jesus não disse que o cuidado com o dízimo dispensava atenção; disse que eles deviam praticar uma coisa sem abandonar a outra (versículo 23).
As duas comparações seguintes chegam ao ponto central da repreensão. Jesus diz que eles se preocupavam em parecer limpos por fora, enquanto por dentro havia ganância e falta de domínio próprio. Eram como túmulos bem cuidados por fora, mas cheios de morte por dentro (versículos 25-28). A questão não era que toda prática religiosa fosse ruim. Era que nenhuma aparência de obediência podia substituir um coração sincero diante de Deus.
Por fim, eles honravam a memória dos profetas que seus antepassados tinham matado e afirmavam que jamais fariam o mesmo. Mas rejeitavam os mensageiros enviados por Deus ao próprio povo deles (versículos 29-36). Pouco depois, os líderes tramariam a morte de Jesus (Mateus 26:3-4). Por isso, suas palavras e seus atos mostravam uma contradição profunda: diziam respeitar os profetas do passado, mas resistiam à mensagem de Deus no presente.
A dureza de Jesus, portanto, não foi uma explosão de raiva sem motivo. Foi uma denúncia pública de uma hipocrisia pública, feita por pessoas com grande influência sobre o povo. Ele também avisou que rejeitar a Deus daquela maneira traria julgamento. Ao mesmo tempo, logo depois dessas palavras, Jesus lamentou a recusa de Jerusalém em acolher o cuidado que ele queria lhe dar (Mateus 23:37). A repreensão era severa porque o perigo era real — e porque as pessoas que estavam sendo prejudicadas importavam pra ele.