A engenharia genética pode ser usada pra tentar tratar uma doença, mas também pode ser usada pra escolher características de uma criança antes de ela nascer. Por isso, não dá pra dizer que ela é sempre boa ou sempre errada. A pergunta mais útil é: o que está sendo feito, com que objetivo e a que custo para as pessoas envolvidas?
A Bíblia não fala diretamente de engenharia genética. Ela foi escrita muito antes dessa tecnologia existir. Mas nos dá princípios pra avaliar seu uso. Deus confiou aos seres humanos o cuidado da criação (Gênesis 1:28; 2:15), e cuidar de quem sofre faz parte da vida cristã (Tiago 2:15-16). A própria Bíblia menciona o uso de um recurso comum da época pra aliviar um problema de saúde (1 Timóteo 5:23). Portanto, tentar tratar uma doença não é, por si só, falta de fé ou uma tentativa de tomar o lugar de Deus.
Isso faz diferença quando pensamos, por exemplo, numa alteração genética destinada a tratar uma doença grave em uma pessoa que pode conhecer os riscos e decidir se aceita o tratamento. Se a técnica for estudada com cuidado e oferecer benefícios reais, um cristão pode vê-la como uma forma de cuidar da saúde. Ainda assim, uma boa intenção não basta: é preciso considerar os riscos, os efeitos que talvez só apareçam depois e se o paciente está sendo tratado com honestidade, não como objeto de um experimento.
A preocupação aumenta quando a alteração pode passar para filhos e netos. Nesse caso, ela não afeta apenas quem tomou a decisão, e seus efeitos podem ser difíceis de prever. Também há questões sérias quando uma técnica envolve a criação, seleção ou destruição de embriões humanos. O Salmo 139:13-16 nos lembra do cuidado de Deus com a vida no ventre. Cristãos podem divergir sobre algumas questões médicas ligadas aos embriões, mas não devem tratar o início da vida humana como um detalhe sem importância.
Outra distinção é entre tratar uma doença e escolher quais pessoas seriam mais desejáveis. Procurar aliviar o sofrimento de alguém é diferente de selecionar características para atender a preferências de aparência, desempenho ou capacidade. A Bíblia ensina que o valor de uma pessoa não depende dessas características: todo ser humano foi criado à imagem de Deus (Gênesis 1:26-27). Uma tecnologia que ajude uns, mas passe a tratar pessoas com deficiência ou doenças como vidas de menor valor, merece uma crítica firme.
O cuidado também se estende ao uso da engenharia genética em plantas e animais. A ordem de cultivar e guardar a criação (Gênesis 2:15) não proíbe toda alteração feita pelo ser humano. Ao mesmo tempo, exige atenção aos efeitos sobre outros seres vivos, sobre o ambiente e sobre as pessoas que dependem dele. Não basta perguntar se algo é possível ou lucrativo.
Alguns cristãos se preocupam com a ideia de que alterar genes seria necessariamente “brincar de Deus”. Esse alerta pode ser útil quando a tecnologia é usada com orgulho, sem respeito pela vida ou sem reconhecer nossos limites. Mas ele não significa que toda intervenção nos genes seja errada. Se fosse assim, também seria difícil justificar muitas outras maneiras de tratar doenças. O limite moral não está simplesmente em *mexer* na natureza; está em como tratamos as pessoas e a criação ao fazer isso.
Também não precisamos temer que uma pessoa concebida ou tratada com ajuda dessa tecnologia fique fora do alcance de Deus ou da salvação em Cristo. A Bíblia não ensina isso. Da mesma forma, cuidar de uma doença não concorre com a esperança cristã de que Deus um dia renovará plenamente a criação (Romanos 8:20-23). Podemos aliviar o sofrimento agora sem imaginar que a ciência conseguirá eliminar todo sofrimento por conta própria.
Assim, o cristão não precisa rejeitar a engenharia genética em bloco, nem aceitar cada avanço só porque ele é novo. Pode apoiar usos que cuidem da vida e aliviem o sofrimento, enquanto examina com especial cuidado os riscos, o tratamento dado aos embriões, os efeitos sobre futuras gerações e a possibilidade de aumentar a desigualdade ou a discriminação. A capacidade de fazer algo não nos dispensa de perguntar se devemos fazê-lo — e como fazê-lo de modo responsável diante de Deus e do próximo.