Elifaz foi um dos três amigos que foram visitar Jó depois que ele perdeu seus filhos, seus bens e sua saúde. No começo, eles fizeram algo bom: ficaram ao lado dele em silêncio durante sete dias, porque viram como seu sofrimento era grande (Jó 2:11-13). O problema começou quando tentaram explicar por que aquilo tinha acontecido.
A mensagem de Elifaz era, em resumo: Deus não castiga uma pessoa inocente desse jeito; portanto, Jó devia ter cometido algum pecado e precisava voltar-se pra Deus. Ele falou isso em três ocasiões, e suas acusações ficaram cada vez mais duras.
Na primeira fala, Elifaz perguntou a Jó se alguém inocente já havia perecido daquela maneira. Para ele, quem semeia o mal colhe sofrimento. Também aconselhou Jó a buscar a Deus e aceitar o que entendia ser uma correção divina (Jó 4–5). Havia uma parte verdadeira no que ele dizia: Deus pode corrigir seus filhos. Mas Elifaz não sabia se era isso que estava acontecendo com Jó.
Depois, quando Jó insistiu que não conhecia nenhum pecado que explicasse sua situação, Elifaz passou a tratar suas palavras como sinal de falta de temor a Deus. Ele descreveu o destino dos perversos de um jeito que parecia apontar pra Jó (Jó 15). Na última fala, deixou a suspeita de lado e fez acusações diretas: afirmou que Jó tinha explorado pessoas, negado ajuda aos necessitados e maltratado viúvas e órfãos (Jó 22:5-9). O livro não apresenta essas acusações como fatos.
O leitor sabe de algo que Elifaz não sabia. Logo no início, Deus descreve Jó como um homem íntegro, que o temia e evitava o mal (Jó 1:8; 2:3). Isso não significa que Jó nunca tivesse pecado. Significa que as tragédias que sofreu não eram castigo pelos crimes que Elifaz lhe atribuía.
Elifaz errou ao transformar uma ideia que às vezes é verdadeira numa regra sem exceções. O pecado pode, sim, trazer consequências dolorosas, e Deus pode corrigir alguém. Mas não podemos olhar pro sofrimento de uma pessoa e concluir, só por isso, que ela está sendo punida por um pecado escondido. Elifaz não conhecia a causa do sofrimento de Jó, mas falou como se conhecesse.
No fim, Deus repreendeu Elifaz e os outros dois amigos por não terem falado corretamente a seu respeito. Eles tiveram de oferecer sacrifícios, e Jó orou por eles (Jó 42:7-9). Assim, a história mostra por que a mensagem de Elifaz, embora contivesse algumas afirmações verdadeiras sobre Deus, foi injusta com Jó: ele tentou explicar a dor do amigo com uma certeza que não tinha.