Na Bíblia, falar em línguas é uma capacidade dada pelo Espírito Santo para falar numa língua que a pessoa não aprendeu. O exemplo mais claro aconteceu no Pentecostes: os discípulos falaram, e pessoas vindas de vários lugares ouviram as grandezas de Deus em seus próprios idiomas (Atos 2:1-11).
A dúvida aparece quando chegamos à primeira carta aos Coríntios. Ali, Paulo fala de línguas que ninguém na reunião entendia, a menos que alguém as interpretasse. Alguns cristãos entendem que eram idiomas humanos desconhecidos dos presentes, como em Atos. Outros entendem que Paulo também se refere a uma forma de oração ou louvor que não precisava ser um idioma humano. O texto não resolve essa diferença de maneira definitiva. O que Paulo deixa claro é o que deve acontecer quando alguém fala em línguas na igreja.
Para Paulo, o propósito dos dons espirituais não é impressionar as pessoas, mas ajudá-las (1 Coríntios 12:7; 14:12). Por isso, se uma língua não é entendida, precisa ser interpretada para que a igreja receba algum benefício. Se não houver quem interprete, a pessoa deve ficar calada durante a reunião, falando consigo mesma e com Deus. Paulo também limita essas manifestações a duas ou três pessoas, uma de cada vez (1 Coríntios 14:27-28). Ele prefere poucas palavras que todos entendam a muitas palavras que não ensinem nada aos ouvintes (1 Coríntios 14:19).
Isso não quer dizer que Paulo desprezasse o dom. Ele afirma que falava em línguas e orienta a igreja a não proibir essa prática (1 Coríntios 14:18, 39). Mas também diz que nem todos recebem o mesmo dom (1 Coríntios 12:29-30). Portanto, falar em línguas não é uma exigência para todo cristão nem uma prova de que alguém tem mais fé ou mais Espírito Santo.
E quanto à oração em línguas? A referência diz que o Novo Testamento não fala disso, mas Paulo menciona a possibilidade de orar em língua e trata da oração feita sem que a mente compreenda o que está sendo dito (1 Coríntios 14:14-15). Ele também reconhece que quem fala em língua pode edificar a si mesmo (1 Coríntios 14:4). Ainda assim, quando a igreja está reunida, sua preocupação principal é que os outros também sejam edificados. Por isso ele insiste na interpretação.
O dom ainda existe hoje? Cristãos que respeitam a autoridade da Bíblia chegam a respostas diferentes. Alguns creem que Deus continua dando esse dom. Outros entendem que ele esteve ligado especialmente ao começo da igreja e que deixou de ser concedido. Paulo diz que as línguas cessarão (1 Coríntios 13:8), mas há discussão sobre *quando* isso aconteceria. Essa passagem, sozinha, não afirma de modo conclusivo que o dom já terminou.
Assim, é bom ter cuidado tanto ao dizer que toda manifestação atual é verdadeira quanto ao afirmar que Deus já não pode conceder esse dom. A Bíblia nos dá critérios mais seguros do que uma impressão pessoal: a prática deve estar de acordo com as orientações de Paulo, contribuir para o bem da igreja e acontecer com ordem (1 Coríntios 14:26-33). E ninguém precisa falar em línguas para ser um cristão completo.