A Bíblia não fala diretamente sobre doação de esperma ou de óvulos. Por isso, não dá pra dizer que toda doação — ou todo uso de um doador — é pecado. Mas também não dá pra tratar a decisão como se fosse apenas um procedimento médico. Ela pode envolver a criação de uma criança, a participação de uma terceira pessoa na origem dela e, em alguns casos, a produção de embriões que talvez não sejam levados adiante.
O desejo de ter filhos não é errado. E procurar ajuda médica para enfrentar a infertilidade não significa, por si só, desobedecer à vontade de Deus. O fato de uma gravidez não acontecer naturalmente não prova que Deus esteja proibindo aquele casal de ter um filho. A questão é como buscar essa ajuda, e não simplesmente se é permitido buscá-la.
Há uma diferença importante entre um tratamento que ajuda um casal a conceber com seus próprios gametas e o uso de esperma ou óvulos de outra pessoa. Nesse segundo caso, quem doa participa da origem biológica da criança, mas geralmente não estará presente pra criá-la. Isso merece ser pensado com seriedade, tanto por quem doa quanto por quem recebe.
Doar não é automaticamente o mesmo que abandonar um filho. Ainda assim, quem doa deve considerar que uma criança pode nascer dessa decisão e, mais tarde, desejar saber quem são seus pais biológicos ou ter perguntas sobre sua própria história. Quem pretende usar um doador precisa pensar em como acolher essa criança e falar com ela com honestidade. Numa doação feita por banco, também pode ser difícil saber quantas crianças nascerão da mesma pessoa ou como as informações sobre sua origem serão guardadas.
Se há um casal envolvido, a decisão precisa ser tomada pelos dois. Gênesis 2:24 apresenta o casamento como uma união profunda entre marido e mulher. Isso não significa que receber esperma ou óvulos de um doador seja automaticamente adultério: não há relação sexual com o doador. Mas significa que não seria correto tratar a participação biológica de outra pessoa como um detalhe sem importância, especialmente se um dos cônjuges tem sérias reservas.
Também é essencial perguntar o que será feito com os embriões. A fecundação forma um embrião, e alguns tratamentos podem produzir mais embriões do que serão transferidos ao útero. Eles podem ser congelados, descartados ou destinados a outros usos, conforme o procedimento escolhido. Para cristãos que entendem que a vida humana deve ser protegida desde a fecundação, esse é um ponto moral decisivo. Isso não quer dizer que todo tratamento com doação faça a mesma coisa. Antes de consentir, é preciso entender exatamente o que a clínica pretende fazer.
A Bíblia ensina que a vida humana é preciosa diante de Deus (Salmo 139:13-16) e que nossas escolhas devem honrá-lo (1 Coríntios 10:31). Esses princípios não resolvem automaticamente cada situação, mas impedem uma decisão apressada. Vale conhecer os procedimentos, conversar com os médicos sobre todas as etapas, ouvir o cônjuge quando houver um casamento envolvido e buscar aconselhamento cristão cuidadoso.
Portanto, não há base bíblica clara pra chamar toda doação ou todo uso de doador de pecado. Também não há base pra dizer que qualquer forma de fazê-lo está certa. A avaliação depende, entre outras coisas, do destino dos embriões, das responsabilidades assumidas com a criança e da honestidade com que todos os envolvidos tratam uma decisão que terá consequências por toda a vida dela.