Jesus estava falando de algo bem concreto: alguns líderes religiosos separavam a décima parte até das ervas que cultivavam, como hortelã, endro e cominho. Eles tinham muito cuidado com esse detalhe, mas deixavam de praticar coisas que Jesus chamou de mais importantes na Lei: a justiça, a misericórdia e a fidelidade (Mateus 23:23).
Na Lei dada a Israel, o dízimo era a entrega de uma décima parte da produção. Levítico 27:30 fala do dízimo do que vinha da terra. Então, o problema apontado por Jesus não era separar o dízimo das ervas. O problema era tratar esse cuidado como prova de obediência a Deus enquanto se agia de modo injusto e sem misericórdia.
Jesus disse que aqueles líderes deviam praticar as coisas mais importantes sem deixar as outras de lado. Em outras palavras, ele não estava ensinando que os detalhes da obediência não importam. Estava mostrando que eles não podem tomar o lugar daquilo que Deus mais espera de nós. Uma pessoa podia separar corretamente uma parte da hortelã que colheu e, ao mesmo tempo, tratar mal alguém que precisava de ajuda. Era essa contradição que Jesus denunciava.
No versículo seguinte, Jesus usa uma comparação forte: eles coavam um mosquito, mas engoliam um camelo (Mateus 23:24). Os dois animais eram considerados impuros pela Lei, mas havia uma enorme diferença de tamanho entre eles. A ideia é fácil de entender: aqueles líderes tinham todo o cuidado pra evitar uma falta pequena, enquanto ignoravam faltas muito maiores.
E o que isso significa pra nós? A fala de Jesus não deve ser usada para impor automaticamente aos cristãos o dízimo das ervas — nem, por si só, uma porcentagem obrigatória de contribuição. Ele estava falando com líderes judeus que viviam sob a Lei de Israel. No Novo Testamento, os cristãos são ensinados a contribuir com generosidade, de acordo com suas possibilidades e sem obrigação imposta à força (2 Coríntios 8:12; 9:7). Há cristãos que usam dez por cento como referência para suas contribuições, mas esse não é o ponto de Mateus 23:23.
O alerta de Jesus continua importante: não basta ser cuidadoso com práticas religiosas se faltam justiça, misericórdia e fidelidade na maneira de viver. Dar a Deus o que é devido não combina com negar ao próximo o tratamento que Deus nos manda oferecer.