A chamada disciplina doméstica cristã (DDC) é a ideia de que, no casamento, o marido pode punir a esposa — às vezes até fisicamente — quando considera que ela desobedeceu ou agiu mal. Algumas pessoas tentam justificar isso usando textos bíblicos sobre a submissão da esposa. Mas a Bíblia não dá ao marido o direito de castigar a esposa.
A confusão costuma começar em Efésios 5. Ali, Paulo fala da relação entre marido e esposa e orienta as esposas a se submeterem aos maridos. Cristãos entendem de maneiras diferentes como essa orientação deve ser vivida no casamento. Há, porém, um ponto que o texto não deixa em dúvida: ele não autoriza o marido a impor obediência por meio de ameaças, humilhação ou violência.
Basta olhar o que Paulo diz aos maridos na mesma passagem. Eles devem amar suas esposas como Cristo amou a igreja e se entregou por ela. Paulo também diz que o marido deve cuidar da esposa como cuida do próprio corpo (Efésios 5:25-29). Usar a força pra puni-la vai na direção contrária desse cuidado. Em Colossenses 3:19, os maridos também são orientados a amar suas esposas e a não tratá-las com aspereza.
Isso não significa que marido e esposa nunca precisem conversar sobre erros. Significa que nenhum dos dois recebe de Deus o papel de juiz e castigador do outro. Se há um problema sério no casamento, o caminho é falar a verdade, ouvir, buscar arrependimento quando necessário e procurar ajuda responsável. A referência a Cristo não transforma a esposa numa criança nem faz do marido alguém com autoridade pra aplicar punições.
E se os dois disserem que concordam com essa prática? O consentimento não cria uma ordem bíblica que não existe. Além disso, numa relação em que uma pessoa se apresenta como tendo autoridade pra punir a outra, é importante levar a sério a possibilidade de medo, pressão ou abuso. Ninguém precisa aceitar violência pra ser considerado um bom cristão.
Portanto, o nome “disciplina doméstica cristã” pode dar uma aparência bíblica à prática, mas castigar a esposa não é um dever nem um direito que a Bíblia atribua ao marido. Se essa pergunta tem relação com ameaças ou agressões reais, a prioridade é buscar segurança e apoio de pessoas e serviços capazes de ajudar.