Isso é o que os teólogos chamam de dioteletismo. A palavra significa “duas vontades”. Ela expressa a ideia de que Jesus, sendo plenamente Deus e plenamente humano, tinha uma vontade divina e uma vontade humana. Isso não quer dizer que havia duas pessoas em Jesus, nem que ele vivia dividido entre querer obedecer e querer desobedecer.
A distinção existe porque Jesus não apenas parecia ser humano. Ele se tornou realmente humano (João 1:14). Sentiu fome, cansaço e tristeza. Também podia desejar, escolher e obedecer como ser humano. Se lhe faltasse uma vontade humana, sua humanidade não seria completa. Ao mesmo tempo, ele não deixou de ser Deus.
A oração de Jesus no Getsêmani ajuda a entender por que essa questão importa. Pouco antes de ser preso e crucificado, ele falou com o Pai sobre o sofrimento que estava por vir. Pediu que, se fosse possível, não precisasse passar por aquilo, mas se submeteu ao que o Pai queria (Lucas 22:42). Jesus não estava querendo pecar. Ele enfrentava uma morte terrível, e não querer sofrer é uma reação humana real. Mesmo assim, escolheu obedecer. Sua obediência não foi uma encenação: ele a viveu como homem, até a morte (Filipenses 2:8).
Há um cuidado importante aqui: quando Jesus fala da sua vontade e da vontade do Pai, a passagem distingue diretamente Jesus e o Pai. Ela não explica, sozinha, toda a doutrina das duas vontades de Jesus. O argumento do dioteletismo reúne essa passagem ao ensino bíblico de que ele é verdadeiramente humano e verdadeiramente divino.
Nos primeiros séculos do cristianismo, surgiu uma discussão sobre isso. Alguns defendiam que Cristo tinha apenas uma vontade, para preservar a unidade da sua pessoa. Os defensores das duas vontades respondiam que uma humanidade sem vontade humana não seria uma humanidade completa. Em 681, o Terceiro Concílio de Constantinopla afirmou a existência de duas vontades em Cristo, sem oposição entre elas.
Em termos simples, o dioteletismo procura levar a sério as duas verdades que a Bíblia apresenta sobre Jesus: ele é Deus e se tornou homem de verdade. Por isso, sua obediência ao Pai foi também uma obediência humana real.