O relato de Gênesis dá a entender que o dilúvio cobriu toda a terra. Ele diz que as águas cobriram até os montes mais altos e que morreram os seres humanos e os animais terrestres que não estavam na arca (Gênesis 7:19-23). Mais adiante, apresenta os filhos de Noé como aqueles de quem vieram os povos da terra depois do dilúvio (Gênesis 9:18-19). Por isso, muitos cristãos entendem que o dilúvio foi global.
A arca também faz parte desse raciocínio. Deus mandou Noé construí-la para preservar sua família e representantes dos animais terrestres (Gênesis 6:17-22). Se a inundação atingisse apenas uma região, seria natural perguntar por que eles precisariam entrar numa arca em vez de sair dali. E, depois do dilúvio, Deus prometeu que nunca mais destruiria todos os seres vivos daquela maneira (Gênesis 9:11-15). Essa promessa parece ir além de uma enchente local, já que enchentes locais continuaram acontecendo.
Mas existe uma interpretação diferente entre cristãos que levam a Bíblia a sério. Alguns entendem que o relato fala da destruição de todo o mundo habitado pelos seres humanos daquela época, sem afirmar necessariamente que a água cobriu cada parte do planeta. Eles lembram que expressões como “toda a terra” às vezes são usadas na Bíblia para falar de uma região inteira vista da perspectiva de seus habitantes. Nessa leitura, a arca foi o meio que Deus escolheu para salvar Noé e sua família durante aquele julgamento, mesmo que, em tese, fosse possível fugir da área atingida.
O Novo Testamento confirma a importância do acontecimento, mas não resolve expressamente essa questão geográfica. Jesus fala do dilúvio como um julgamento que pegou as pessoas desprevenidas (Mateus 24:37-39). Pedro também se refere à destruição daquele mundo pelas águas (2 Pedro 3:5-6). O ponto que ambos destacam é o julgamento de Deus e a necessidade de levar seus avisos a sério.
Também é bom separar o que Gênesis diz das tentativas de explicar *como* o dilúvio aconteceu. O texto menciona água vindo de baixo e chuva vindo do céu (Gênesis 7:11), mas não fala de uma cobertura de vapor ao redor da terra. Do mesmo modo, fósseis marinhos em montanhas ou grandes camadas de sedimentos, por si só, não comprovam um dilúvio global: existem explicações geológicas para esses achados.
Então, a resposta é esta: uma leitura natural do conjunto de Gênesis favorece a ideia de um dilúvio global, embora haja cristãos que entendam suas expressões de alcance universal como referência a todo o mundo humano daquela época. A Bíblia é clara sobre o que está no centro do relato: Deus julgou a violência e a maldade humanas, preservou Noé e sua família e, depois, fez uma promessa à humanidade (Gênesis 6:11-13; 8:20–9:17).