Não é possível comprovar o dilúvio de Noé como um acontecimento que cobriu todo o planeta. Gênesis conta que, nos dias de Noé, Deus julgou a maldade humana por meio de um dilúvio e preservou Noé, sua família e os animais que estavam na arca (Gênesis 6–8). Mas a pergunta sobre as evidências precisa de um cuidado: uma coisa é levar o relato bíblico a sério; outra é dizer que já existe prova científica de uma inundação global. Isso não foi demonstrado.
O texto de Gênesis usa uma linguagem muito ampla. Ele diz que as águas cobriram os montes e que os seres vivos fora da arca morreram (Gênesis 7:19-23). Por isso, muitos cristãos entendem que o dilúvio atingiu o mundo inteiro. Outros entendem que o relato descreve uma inundação enorme, que alcançou todo o mundo conhecido pelas pessoas daquela época, sem necessariamente cobrir o planeta inteiro. Essa diferença de interpretação é importante, porque as evidências necessárias pra sustentar cada conclusão não são as mesmas.
Há histórias antigas de grandes dilúvios em diferentes povos. Elas mostram que enchentes marcaram profundamente a memória de muitas comunidades. Algumas têm semelhanças com Gênesis. Ainda assim, não dá pra concluir, só por causa dessas histórias, que todas falam de uma única inundação global. Povos diferentes também podiam viver perto de rios e passar por enchentes devastadoras.
O mesmo cuidado vale pras rochas e pros fósseis. Existem rochas formadas pelo acúmulo de sedimentos na água, e alguns depósitos de fósseis mostram que animais foram soterrados rapidamente. Isso é compatível com grandes inundações em determinados lugares, mas não prova, por si só, que toda a Terra ficou debaixo d’água ao mesmo tempo. Já os fósseis de animais marinhos encontrados em montanhas têm uma explicação geológica conhecida: as rochas que os contêm se formaram em antigos ambientes marinhos e, ao longo de muito tempo, foram elevadas por movimentos da crosta terrestre. Não é correto dizer que a ciência não oferece explicação pra eles.
Então, o que podemos afirmar? A Bíblia apresenta o dilúvio como um ato sério do julgamento de Deus e a preservação de Noé como um ato de misericórdia. Jesus também se referiu aos dias de Noé ao ensinar sobre a necessidade de estar preparado (Mateus 24:37-39). Quanto à extensão geográfica da inundação e às evidências físicas que poderiam ser ligadas especificamente a ela, é preciso falar com mais cautela. Grandes enchentes aconteceram na história da Terra; o que não temos é uma prova científica reconhecida de que uma única enchente cobriu simultaneamente todo o planeta nos dias de Noé.
Assim, ninguém precisa chamar de “prova do dilúvio global” aquilo que os dados não demonstram. É possível estudar as evidências com honestidade, reconhecer os limites delas e, ao mesmo tempo, prestar atenção à mensagem principal de Gênesis: Deus leva a maldade humana a sério, mas também oferece um caminho de salvação.