A dúvida aparece porque a expressão “Dia da Preparação” pode dar a impressão de que as pessoas ainda estavam se preparando pra comer a Páscoa. Mas, nos relatos da crucificação, ela também é usada para o dia anterior ao sábado — isto é, a sexta-feira. Marcos deixa isso claro ao explicar que Jesus foi sepultado no Dia da Preparação, na véspera do sábado (Marcos 15:42).
Por isso, é possível entender a sequência assim: Jesus comeu a refeição da Páscoa com os discípulos, foi preso naquela noite e morreu no dia seguinte, antes de começar o sábado. Mateus, Marcos e Lucas apresentam a última refeição de Jesus com os discípulos como uma refeição pascal (Mateus 26:17-19; Marcos 14:12-16; Lucas 22:7-15). Nessa leitura, não há contradição entre ele ter comido a Páscoa e ter morrido no Dia da Preparação: a preparação era para o sábado.
A parte mais difícil está em João. Ele chama o dia da morte de Jesus de “preparação da Páscoa” (João 19:14). Uma explicação possível é que João esteja falando da sexta-feira que caiu durante as celebrações da Páscoa. Naquele tempo, o nome “Páscoa” podia ser usado também para a festa ligada a ela, a Festa dos Pães sem Fermento, que continuava por vários dias (Lucas 22:1). Isso também pode explicar João 18:28: quando os líderes judeus evitam entrar na residência do governador para poderem “comer a Páscoa”, talvez estejam pensando nas refeições e celebrações que ainda ocorreriam durante a festa, não necessariamente na refeição que Jesus já havia comido.
Essa explicação é possível, mas não resolve cada detalhe sem discussão. Alguns estudiosos entendem que João situa a morte de Jesus antes da refeição pascal principal e, por isso, propõem outras formas de compreender a última ceia e a diferença entre os relatos. Os Evangelhos não explicam diretamente como devemos conciliar todos esses pontos.
O que podemos afirmar com segurança é o essencial da sequência: Jesus comeu com os discípulos antes de ser preso; morreu no Dia da Preparação, antes do sábado; e ressuscitou no primeiro dia da semana (Marcos 15:42; 16:1-6). A expressão “Dia da Preparação”, por si só, não significa que Jesus ainda não poderia ter comido a refeição da Páscoa.