Não dá pra afirmar isso com segurança. Deuteronômio 22:28-29 diz que um homem que teve relações com uma jovem virgem não prometida em casamento deveria pagar uma quantia ao pai dela e assumir o casamento, sem poder se divorciar depois. A dificuldade está em saber se o texto descreve uma relação forçada ou outro tipo de relação sexual. Cristãos que levam a Bíblia a sério interpretam essa parte de maneiras diferentes.
O contexto ajuda a entender por que a pergunta é tão importante. Pouco antes, em Deuteronômio 22:25-27, a lei trata claramente de uma agressão sexual contra uma mulher *prometida em casamento*. Nesse caso, só o agressor recebe a pena; a mulher é declarada inocente. Portanto, não há dúvida de que o texto reconhece a violência sexual e não culpa a vítima por ela.
Mas o caso dos versículos 28 e 29 tem uma diferença: a jovem não estava prometida em casamento. A diferença de pena, por si só, não prova que a relação foi consentida. Naquelas leis, o compromisso de casamento também mudava a maneira como o caso era tratado. Por isso, não seria correto dizer que todo estupro recebia necessariamente a pena descrita nos versículos 25 a 27.
Há razões para entender os versículos 28 e 29 como um caso de relação sexual fora do casamento, e não de estupro. Êxodo 22:16-17 apresenta uma lei parecida sobre um homem que seduz uma jovem não prometida. Ali, o homem deve pagar o valor estabelecido para o casamento, mas o pai pode recusar a união. Isso mostra que obrigar o homem a assumir a responsabilidade não significava necessariamente obrigar a jovem a se casar. Alguns intérpretes entendem que Deuteronômio trata da mesma situação.
Ainda assim, essa comparação não resolve tudo. Deuteronômio usa um verbo que pode descrever o ato de agarrar ou tomar alguém; sozinho, ele não deixa claro se houve consentimento. Além disso, a frase que diz que “eles foram descobertos” não prova que os dois concordaram com a relação. Duas pessoas podem ser descobertas numa situação sem serem igualmente responsáveis por ela. Por esses motivos, outros intérpretes entendem que Deuteronômio 22:28-29 pode, sim, descrever uma agressão.
Então, qual é a resposta mais honesta? A passagem impõe uma obrigação ao homem, mas não diz expressamente que uma vítima de estupro era obrigada a viver com o agressor. Também não é possível provar apenas pelo vocabulário que não houve estupro. A Bíblia é clara, no trecho anterior, ao declarar inocente a mulher agredida. Já a natureza exata do caso descrito nos versículos 28 e 29 continua sendo discutida.
Essas leis foram dadas numa sociedade em que uma relação sexual podia trazer consequências sociais e econômicas graves pra jovem. O texto responsabiliza o homem e não permite que ele simplesmente vá embora depois. Isso ajuda a entender o propósito da lei, sem exigir que a gente chame uma agressão de relação consentida ou trate um casamento imposto à vítima como algo bom.