Essa é uma pergunta difícil, especialmente quando lemos que, em algumas guerras, morreram até mulheres e crianças. Não seria honesto responder apenas que “Deus tinha seus motivos” e deixar a dúvida aí. A Bíblia apresenta motivos para aqueles julgamentos, mas não conta todos os detalhes que gostaríamos de saber.
Primeiro, a Bíblia não trata a vida humana como algo de pouco valor. Ela diz que Deus criou as pessoas à sua imagem e, por isso, proíbe o assassinato (Gênesis 1:27; 9:5-6; Êxodo 20:13). Ao mesmo tempo, mostra Deus como juiz do mal. O mandamento contra o assassinato não significa que Deus nunca possa julgar uma pessoa ou uma nação, nem que ele nunca possa usar pessoas para executar um julgamento.
É assim que o Antigo Testamento apresenta o dilúvio, a destruição de Sodoma e Gomorra e algumas guerras de Israel. No caso dos povos de Canaã, a terra que Israel ocuparia, a explicação dada é que Deus estava julgando a maldade daquelas nações, não recompensando Israel por ser um povo melhor (Deuteronômio 9:4-6). Séculos antes, Deus já havia indicado que o julgamento não viria imediatamente (Gênesis 15:16). E Israel recebeu o aviso de que, se praticasse os mesmos males, também seria julgado — algo que depois aconteceu (Levítico 18:24-28; 2 Reis 17:7-23).
Isso ajuda a entender o que aqueles relatos afirmam, mas não elimina a parte mais dolorosa da pergunta: e as crianças? A Bíblia relata ordens de destruição que as incluíam (Deuteronômio 20:16-17; 1 Samuel 15:3). Ela não explica o destino eterno de cada criança, nem oferece uma resposta detalhada para o sofrimento de cada família. Podemos dizer que esses acontecimentos são apresentados como julgamentos excepcionais de Deus; não podemos fingir que todos os detalhes morais ficaram fáceis de compreender. Também seria errado afirmar que cada pessoa atingida havia cometido pessoalmente os mesmos atos dos adultos daquela sociedade.
Há ainda um limite essencial: essas ordens não dão a ninguém, hoje, o direito de atacar outros povos em nome de Deus. Eram ordens ligadas a acontecimentos específicos da história de Israel, não uma autorização permanente para a violência religiosa. O próprio livro de Josué conta que Raabe e sua família foram poupadas em Jericó (Josué 6:22-25), e Israel não tinha liberdade para decidir, por conta própria, quem merecia morrer.
Para os cristãos, é importante ler esses relatos à luz de Jesus. Ele não mandou seus seguidores conquistar terras ou matar quem rejeitasse a fé. Ensinou-os a amar os inimigos e recusou o uso da espada para defender seu reino (Mateus 5:44; João 18:36). Isso não apaga as perguntas difíceis do Antigo Testamento. Mas deixa claro que um cristão não pode transformar aquelas guerras em modelo para espalhar a fé.
Então, a resposta é esta: segundo o Antigo Testamento, Deus ordenou algumas dessas mortes como julgamento do mal, em situações específicas — não porque a vida humana tivesse pouco valor. A Bíblia apresenta essa razão com clareza. Ao mesmo tempo, sobretudo quando pensamos nas crianças, ela não responde a tudo o que gostaríamos de perguntar. Levar esses textos a sério inclui reconhecer as duas coisas.