A dúvida faz sentido. Números 23:19 diz que Deus não é homem nem filho de homem. Já Jesus foi um homem de verdade e muitas vezes chamou a si mesmo de “Filho do Homem”. Parece uma contradição, mas o contexto de Números mostra o que aquela frase está dizendo.
Quem fala ali é Balaão. Um rei queria que ele amaldiçoasse o povo de Israel, mas Deus havia decidido abençoá-lo. Balaão explica que Deus não é como um ser humano, que pode mentir, voltar atrás no que prometeu ou dizer uma coisa e fazer outra. Esse é o sentido da pergunta que vem logo em seguida no versículo: se Deus falou, não vai cumprir? Números 23:19 está afirmando que Deus é fiel à sua palavra, não dizendo que ele jamais poderia vir ao mundo como homem.
O Novo Testamento ensina que foi isso que aconteceu com Jesus. João diz que aquele que estava com Deus e era Deus se tornou humano e viveu entre nós (João 1:1, 14). Isso não significa que Deus deixou de ser Deus. Significa que o Filho de Deus assumiu uma vida humana real. Jesus sentiu fome, cansaço e dor; ao mesmo tempo, não mentiu nem pecou (Hebreus 4:15). Ele se tornou homem sem passar a ter os defeitos humanos que Números 23:19 está contrastando com a fidelidade de Deus.
E por que Jesus se chama “Filho do Homem”? Essa expressão combina com sua humanidade, mas também lembra a visão de Daniel 7:13-14. Ali, alguém descrito como “um como filho de homem” recebe de Deus um reino que não terá fim. Por isso, quando Jesus usa esse nome, não está dizendo que é *apenas* um homem ou negando quem ele é. Ele se apresenta como o homem que veio cumprir a missão dada por Deus e que receberia esse reino.
Então, as duas passagens respondem a perguntas diferentes. Números 23:19 mostra como Deus é: ele não mente nem falha no que promete. O Novo Testamento mostra o que o Filho de Deus fez: tornou-se verdadeiramente humano sem deixar de ser Deus. Uma verdade não cancela a outra.