Não, segundo a Bíblia, Deus não é um assassino. Mas essa resposta não torna fáceis os relatos em que pessoas morrem por causa de um julgamento divino. É justo perguntar como um Deus bom pode fazer isso, especialmente quando esses relatos incluem crianças.
Primeiro, precisamos distinguir duas coisas: tirar uma vida e cometer um assassinato não significam exatamente o mesmo. O mandamento de Êxodo 20:13 proíbe matar alguém de modo injusto. A própria lei de Israel reconhecia diferenças entre um assassinato e uma morte causada sem intenção, por exemplo (Números 35:16-25). Então, o simples fato de alguém ter morrido por uma ação de Deus não responde, por si só, à pergunta sobre a justiça dessa ação.
A Bíblia apresenta Deus como criador da vida e também como juiz de toda a terra. Ela afirma que ele é justo e não pratica o mal (Deuteronômio 32:4; Gênesis 18:25). Quando descreve o dilúvio, por exemplo, Gênesis 6:5-13 diz que a violência e a maldade tinham se espalhado pela humanidade. O relato não apresenta aquela destruição como um ato de crueldade sem motivo, mas como julgamento.
Isso não quer dizer que podemos resolver a questão dizendo apenas: “Deus criou as pessoas, então pode fazer o que quiser.” Ter poder não é a mesma coisa que agir com justiça. O fundamento da resposta bíblica é que Deus conhece plenamente o que nós não conhecemos e julga com justiça, não por maldade ou capricho. Ao mesmo tempo, quando não entendemos todos os motivos de um julgamento, não devemos fingir que entendemos.
Os relatos da conquista de Canaã são especialmente difíceis. A Bíblia associa aquele julgamento às práticas graves daqueles povos, inclusive o sacrifício de crianças (Deuteronômio 12:31), e diz que Israel não deveria adotá-las (Deuteronômio 20:16-18). Ainda assim, isso não elimina a dor de ler que crianças também foram atingidas. Dizer que toda a humanidade está sujeita ao pecado e à morte, como ensinam Romanos 3:23 e 5:12, não é o mesmo que dizer que uma criança cometeu os crimes dos adultos. A Bíblia não fornece uma explicação detalhada pra cada morte nesses episódios.
Também seria um erro usar esses relatos pra justificar violência religiosa hoje. Israel recebeu ordens ligadas àquele momento específico da sua história. Jesus não mandou seus seguidores conquistar povos ou matar quem não crê; ensinou-os a amar até os inimigos (Mateus 5:44).
Por fim, a Bíblia não apresenta Deus como alguém que sente prazer na morte. Ela fala da sua paciência e do seu chamado ao arrependimento (Ezequiel 18:23; 2 Pedro 3:9). E apresenta a morte como um inimigo que, por meio de Cristo, será vencido (1 Coríntios 15:26).
Portanto, a resposta cristã não é que essas mortes sejam pequenas ou fáceis de explicar. É que julgar com justiça não é assassinar — e a Bíblia afirma que Deus é um juiz justo. Podemos confiar nessa afirmação sem deixar de reconhecer o quanto alguns desses relatos são difíceis de compreender.