Não, se por desconstrucionismo queremos dizer que o texto bíblico não tem um sentido que podemos procurar entender. Mas vale fazer uma distinção: perceber a influência da cultura e examinar nossas próprias ideias ao ler a Bíblia pode ajudar muito. O problema começa quando concluímos que o texto não pode comunicar uma mensagem confiável e que cada leitor pode lhe dar o sentido que quiser.
O desconstrucionismo é uma maneira de analisar textos que dá muita atenção às palavras, às ideias de uma época e às possíveis tensões dentro daquilo que foi escrito. Essa análise pode levantar perguntas úteis. Por exemplo: será que estou entendendo uma palavra como ela era entendida naquele tempo? Será que estou colocando no texto uma ideia que aprendi na minha cultura? Fazer essas perguntas não é desrespeitar a Bíblia. Pode ser parte de uma leitura cuidadosa.
A dificuldade está em usar o desconstrucionismo como *regra principal* de interpretação, tratando a intenção de quem escreveu como algo que nunca podemos conhecer e o sentido do texto como algo sempre instável. A própria Bíblia nos convida a lê-la de outra maneira. Em Neemias 8:8, a Lei é lida e explicada para que o povo entenda o que foi lido. Em Lucas 24:27, Jesus explica o que as Escrituras diziam a respeito dele. Essas passagens não ensinam que toda frase bíblica é fácil, mas mostram que compreender o que ela comunica é um objetivo possível e importante.
Isso também não quer dizer que qualquer pessoa possa abrir a Bíblia e acertar de primeira. Pedro reconheceu que há coisas difíceis de entender nas cartas de Paulo e alertou que elas podiam ser distorcidas (2 Pedro 3:15-16). Por isso, precisamos prestar atenção ao contexto: quem escreveu, a quem escreveu, o que estava acontecendo e como uma passagem se relaciona com o restante das Escrituras. Há textos sobre os quais cristãos sinceros chegam a conclusões diferentes. Reconhecer essa dificuldade é bem diferente de dizer que o texto pode significar qualquer coisa.
Existe ainda uma diferença entre questionar a nossa interpretação e descartar a possibilidade de conhecer o que Deus comunicou. A primeira atitude pode nos tornar mais humildes e atentos. A segunda entra em conflito com a maneira como a Bíblia se apresenta: como Escritura útil pra ensinar e orientar o povo de Deus (2 Timóteo 3:16-17).
Então, podemos aproveitar perguntas que nos ajudem a ler melhor, inclusive perguntas sobre linguagem e cultura. Mas não precisamos adotar a ideia de que a mensagem bíblica se perde atrás das palavras ou depende apenas do leitor. O caminho mais seguro é examinar nossas suposições e, ao mesmo tempo, procurar ouvir com cuidado o que o texto realmente diz.