Sim, se entendermos bem o que essa expressão quer dizer. “Depravação total” não significa que toda pessoa seja tão cruel quanto poderia ser, nem que quem não crê em Deus seja incapaz de amar os filhos, ajudar alguém ou fazer algo bom aos olhos dos outros. A ideia é outra: o pecado afeta a pessoa inteira — seus desejos, pensamentos, escolhas e atitudes. Por isso, ninguém consegue se tornar justo diante de Deus por esforço próprio.
A Bíblia apresenta esse problema como algo que vai além dos nossos atos. Jesus ensinou que as coisas más que fazemos vêm do coração (Marcos 7:20-23). Paulo diz que tanto judeus quanto não judeus estão debaixo do pecado e, ao reunir várias passagens do Antigo Testamento, conclui que ninguém é justo por si mesmo diante de Deus (Romanos 3:9-18). Isso não quer dizer que todas as pessoas cometam todos os pecados mencionados ali. Quer dizer que nenhuma pode se apresentar a Deus como alguém que não precisa de perdão.
É importante manter as duas coisas juntas. As pessoas continuam capazes de reconhecer parte do que é certo e de praticar atos que beneficiam os outros. A própria Bíblia fala de pessoas que, mesmo sem conhecer a lei de Deus, fazem coisas que ela exige e mostram ter consciência moral (Romanos 2:14-15). Mas essas capacidades não apagam o pecado nem resolvem a nossa separação de Deus. Uma boa ação não é uma maneira de compensar uma vida inteira de desobediência ou de produzir, por nós mesmos, a justiça que Deus exige.
É aí que aparece uma distinção importante. Os cristãos concordam que precisamos da graça de Deus pra ser salvos; eles discordam sobre como Deus nos torna capazes de responder ao evangelho. Na interpretação calvinista, o pecado nos torna incapazes de nos voltar a Deus com fé por iniciativa própria. Deus, então, nos dá vida espiritual, e assim respondemos a Cristo. Essa leitura se apoia, entre outras passagens, em Efésios 2:1-5, que descreve os pecadores como mortos em seus pecados e diz que Deus lhes deu vida com Cristo.
Outros cristãos também afirmam que ninguém pode crer sem a ação de Deus, mas entendem que ele concede graça que permite à pessoa responder ao evangelho, sem determinar essa resposta. Essa diferença não deve ser escondida, porque a expressão “depravação total” costuma ser usada também pra defender a primeira interpretação. A Bíblia afirma claramente tanto a gravidade do nosso pecado quanto a necessidade da iniciativa de Deus; a discussão está em como relacionar essa ação divina à resposta humana.
Então, a resposta curta é: a condição humana que a expressão procura descrever tem forte fundamento bíblico. O pecado não é apenas uma coleção de erros que conseguimos corrigir sozinhos. Precisamos de perdão e de vida nova, que Deus nos oferece por meio de Jesus Cristo (Efésios 2:4-9). A expressão pode ajudar a explicar isso, desde que “total” não seja confundido com “tão mau quanto possível”.