Pastor Antônio Junior

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O que é demitização? Precisamos tirar os milagres da Bíblia para entendê-la?

Autor: Admin

Publicado: 2026-11-05

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Demitizar a Bíblia é interpretar seus relatos de modo que aquilo que parece sobrenatural deixe de ser entendido como um acontecimento real e passe a expressar uma verdade sobre a vida humana e sua relação com Deus. Essa proposta ficou especialmente ligada a Rudolf Bultmann, um estudioso do Novo Testamento do século 20. Ele achava que a mensagem cristã precisava ser explicada sem exigir que as pessoas de sua época aceitassem a maneira como os autores bíblicos descreviam o mundo espiritual.

É importante não simplificar demais o que ele dizia. Bultmann não queria apenas cortar os milagres da Bíblia e ficar com algumas lições de moral. Ele queria interpretar a linguagem que chamava de “mítica” para mostrar o que a mensagem sobre Jesus significava pra existência de cada pessoa. Ainda assim, sua proposta traz uma pergunta decisiva: a fé cristã depende de algo que Deus realmente fez na história, ou basta o significado que encontramos nos relatos?

A Bíblia trata muitos de seus relatos como acontecimentos, não apenas como maneiras de transmitir uma ideia. Lucas, por exemplo, diz que investigou os fatos antes de escrever seu Evangelho (Lucas 1:1-4). E, quando Paulo fala da ressurreição de Jesus, menciona pessoas a quem Jesus apareceu depois de morrer, algumas das quais ainda estavam vivas quando ele escreveu (1 Coríntios 15:3-8). Paulo não apresenta a ressurreição somente como uma mensagem de esperança. Ele afirma que Jesus ressuscitou.

É por isso que, no sentido de transformar os milagres centrais do evangelho em símbolos de acontecimentos que não ocorreram, a Bíblia não precisa ser demitizada. Paulo é direto: se Cristo não ressuscitou, a pregação cristã e a fé nela não têm fundamento, e os cristãos ainda estão em seus pecados (1 Coríntios 15:14-19). Pra ele, não bastaria dizer que “Jesus continua vivo em nossa esperança” se Jesus, de fato, continuasse morto.

Isso não quer dizer que toda passagem bíblica deva ser lida da mesma maneira. A Bíblia contém poesia, parábolas, visões e linguagem figurada. Quando Jesus conta uma parábola, por exemplo, não precisamos provar que aqueles personagens existiram pra compreender o ensinamento. Ler com atenção inclui perceber que tipo de texto está diante de nós. Mas reconhecer a linguagem figurada onde ela existe é diferente de decidir, antes de examinar o texto, que um milagre não pode ter acontecido.

Também não é verdade que as pessoas do primeiro século acreditavam em milagres porque desconheciam o que costuma acontecer na vida. Maria perguntou como poderia ter um filho sem ter tido relações sexuais (Lucas 1:34). Tomé não aceitou de imediato a notícia de que Jesus havia ressuscitado (João 20:24-25). Eles sabiam que aqueles acontecimentos seriam extraordinários. Justamente por isso, os relatos chamaram sua atenção.

Assim, a pergunta mais importante não é se devemos retirar o sobrenatural pra tornar a Bíblia aceitável ao leitor moderno. É se há boas razões pra confiar no que seus autores dizem sobre Jesus. Podemos estudar o contexto, entender as formas de linguagem e examinar as afirmações bíblicas com seriedade. Mas não podemos transformar a ressurreição num simples símbolo sem mudar profundamente o evangelho que os apóstolos anunciaram.