A pergunta por trás dessa defesa é difícil: se Deus é bom e todo-poderoso, como pode existir tanto mal? O filósofo Alvin Plantinga não tentou explicar por que cada sofrimento acontece. Ele respondeu a uma afirmação mais específica: a de que a existência do mal *prova, por uma contradição lógica*, que Deus não pode existir.
Plantinga argumentou que essa contradição não foi demonstrada. É possível que Deus tenha uma boa razão pra criar pessoas capazes de escolher, mesmo sabendo que elas poderiam escolher o mal. Uma pessoa que pode amar, obedecer e fazer o bem por decisão própria também pode agir de modo errado. Se Deus impedisse todas as escolhas erradas antes que acontecessem, as pessoas não teriam essa mesma liberdade ao fazer escolhas morais.
Mas é importante dizer isso com cuidado. Plantinga não afirmou que Deus é incapaz de fazer qualquer pessoa livre escolher sempre o bem. O ponto é outro: não há garantia de que Deus poderia criar um mundo com pessoas verdadeiramente livres e, ao mesmo tempo, garantir que nenhuma delas jamais escolheria o mal. Pode ser que, em qualquer mundo assim que Deus criasse, pelo menos alguém escolhesse agir mal. Plantinga apresentou isso como uma possibilidade lógica, não como um fato que ele pudesse comprovar sobre todos os mundos possíveis.
Essa diferença explica o que significa chamar seu argumento de *defesa*. Pra responder à afirmação de que “Deus e o mal são impossíveis de conciliar”, Plantinga não precisa provar que a liberdade é a razão pela qual Deus permite todo o mal. Basta mostrar uma possibilidade coerente em que Deus seja bom e poderoso, e ainda assim permita que pessoas livres façam escolhas más. Se essa possibilidade existe, a suposta contradição deixa de ser uma prova contra a existência de Deus.
A Bíblia não apresenta o argumento filosófico de Plantinga, mas ensina pontos importantes pra essa conversa. Em Gênesis 3, os seres humanos desobedecem a Deus. Tiago 1:13 deixa claro que Deus não tenta ninguém a fazer o mal. Esses textos ajudam a distinguir entre Deus permitir uma ação errada e ser o autor dela. Ao mesmo tempo, a Bíblia não atribui *todo* sofrimento a uma escolha errada feita pela pessoa que sofre. Por isso, a defesa baseada na liberdade humana não resolve, sozinha, questões como doenças, terremotos ou o sofrimento de uma criança.
Também fica uma pergunta legítima: mesmo que Deus e o mal possam existir sem contradição, por que Deus permite tanto mal e sofrimento? Essa é uma questão diferente, que a defesa de Plantinga não pretende encerrar. A fé cristã não exige fingir que o sofrimento é pequeno ou fácil de explicar. Ela afirma que Deus se importa com quem sofre, aponta pra Jesus Cristo — que sofreu injustamente — e anuncia que Deus acabará com o mal e a morte (Hebreus 4:15; Apocalipse 21:4).
Então, a resposta curta é esta: Plantinga mostrou como o mal causado por escolhas livres pode existir sem tornar logicamente impossível a existência de um Deus bom e todo-poderoso. Isso não prova que Deus existe nem explica cada sofrimento. Mas mostra que, pra discutir seriamente o problema do mal, é preciso ir além de dizer que Deus e o mal simplesmente não podem existir juntos.