Quando a teologia fala dos decretos de Deus, está falando dos seus propósitos: aquilo que Deus decidiu fazer na história e o fim para o qual ele conduz todas as coisas. Não são ordens que ele precisa dar a si mesmo, nem decisões tomadas de última hora. A Bíblia apresenta Deus como alguém que age com sabedoria e cujo propósito permanece firme (Salmo 33:11; Isaías 46:10).
Um exemplo ajuda a entender. Antes da criação do mundo, Deus já tinha o propósito de salvar pessoas por meio de Jesus Cristo (Efésios 1:4-5; 2 Timóteo 1:9). Isso aconteceu num momento concreto da história, quando Jesus morreu e ressuscitou. O plano era anterior; sua realização aconteceu no tempo.
A morte de Jesus também mostra uma distinção importante. Deus não aprovou a maldade de quem o condenou e matou. Pedro responsabilizou aquelas pessoas pelo que fizeram e, ao mesmo tempo, disse que Jesus foi entregue conforme o plano de Deus (Atos 2:23). Portanto, dizer que algo está dentro dos propósitos de Deus não significa dizer que Deus pratica o mal ou que as pessoas deixam de ser responsáveis por suas escolhas. Ele pode permitir uma ação má e, sem aprová-la, agir de modo que ela não impeça o bem que decidiu realizar.
Cristãos que reconhecem a autoridade da Bíblia divergem sobre como explicar a relação exata entre os decretos de Deus e cada decisão humana. Alguns entendem que tudo o que acontece está incluído num plano estabelecido por Deus, inclusive aquilo que ele permite. Outros dão mais destaque à liberdade humana ao explicar essa relação. A Bíblia não responde a todas as perguntas que essa discussão levanta. Ela afirma, porém, duas coisas que precisamos manter juntas: Deus realiza seus propósitos, e nossas escolhas têm importância e responsabilidade reais.
Também não conhecemos todos os detalhes do que Deus decidiu fazer. Por isso, não devemos olhar pra uma tragédia e afirmar que sabemos por que ele a permitiu. O que ele nos revelou é suficiente pra confiar nele, obedecer ao que ensina e orar. A confiança nos decretos de Deus não torna nossas ações inúteis; ela nos lembra que a história não está fora do seu cuidado. Em Cristo, vemos com mais clareza o que Deus está fazendo: salvando pecadores e conduzindo seus filhos a um futuro que o mal não poderá destruir (Romanos 8:28, 38-39).