A expressão pode causar confusão porque Romanos 12:19 não está mandando dar espaço à nossa raiva. Paulo está dizendo o contrário: quando alguém nos faz mal, não devemos nos vingar. Devemos deixar o julgamento e a retribuição nas mãos de Deus. É por isso que algumas traduções deixam explícito: “deem lugar à ira de Deus”.
O próprio versículo explica o sentido da frase. Paulo lembra uma declaração do Antigo Testamento: a vingança pertence a Deus, e é ele quem retribuirá (Deuteronômio 32:35). Nós podemos estar feridos, com raiva e até certos de que sofremos uma injustiça. Mesmo assim, não temos o direito de assumir o papel de juiz e fazer a pessoa sofrer em troca.
Isso não quer dizer fingir que nada aconteceu. Também não significa continuar numa situação de violência ou deixar de denunciar um crime. É possível se proteger, estabelecer limites e buscar ajuda ou justiça pelas autoridades sem agir por vingança. O que Paulo proíbe é pagar o mal com o mal por conta própria. No capítulo seguinte, ele reconhece que as autoridades têm a responsabilidade de lidar com quem pratica o mal (Romanos 13:1-4).
Paulo vai além de dizer “não se vingue”. Ele ensina que, se o inimigo estiver com fome ou sede, devemos ajudá-lo, e encerra dizendo que o mal deve ser vencido com o bem (Romanos 12:20-21). A ideia não é usar a bondade como outro jeito de ferir alguém. É não permitir que a maldade recebida determine a maneira como vamos tratar os outros.
Portanto, se a dúvida é se devemos “dar lugar” ou “não dar lugar” à ira, a resposta depende de *qual ira* estamos falando. Não devemos dar lugar à nossa raiva como motivo pra vingança. Devemos dar lugar à justiça de Deus, confiando que ele vê o que aconteceu e sabe julgar com justiça.