“Cultura do estupro” não quer dizer que a maioria das pessoas aprove o estupro. A expressão descreve um ambiente em que atitudes e práticas acabam facilitando a violência sexual ou dificultando que ela seja denunciada e enfrentada. Isso acontece, por exemplo, quando alguém culpa a vítima pelo que sofreu, trata uma denúncia como motivo de piada, desculpa a agressão por causa da posição do agressor ou deixa de investigar o caso com seriedade.
É importante distinguir as coisas. Uma denúncia precisa ser apurada com justiça; acusar alguém não é o mesmo que provar sua culpa. Mas essa cautela não justifica desprezar quem relata uma agressão. É possível levar a pessoa a sério, oferecer proteção e investigar os fatos sem condenar ninguém antes da apuração.
A Bíblia ajuda a entender por que isso importa tanto. Cada ser humano foi criado à imagem de Deus (Gênesis 1:27). Por isso, ninguém tem o direito de tratar o corpo de outra pessoa como algo que pode tomar ou usar. A violência sexual não é uma relação sexual mal conduzida: é uma agressão, uma violação da vontade e da dignidade de alguém. A responsabilidade é de quem agride, não de quem sofreu a agressão.
A história de Tamar, em 2 Samuel 13, mostra isso de maneira dolorosa. Amnom ignorou a recusa dela e a violentou. Depois, a rejeitou. O relato não apresenta o que aconteceu como um romance nem atribui culpa a Tamar; mostra a violência e suas consequências na vida dela. Em Deuteronômio 22:25-27, a lei também distingue a vítima do agressor e declara que a mulher forçada não cometeu crime. Não podemos usar essas passagens pra responder a todos os detalhes das leis atuais, mas o princípio é claro: sofrer uma agressão não torna a vítima culpada por ela.
Falar em “cultura” é olhar além do ato de um agressor. É perguntar como as pessoas ao redor reagem. Quando uma comunidade se preocupa mais em preservar a reputação de alguém influente do que em proteger quem foi ferido, ela aumenta o sofrimento da vítima e pode deixar outras pessoas em risco. Isso também pode acontecer dentro de uma igreja, mesmo que ela ensine que o estupro é pecado. O que a comunidade faz diante de uma denúncia precisa ser coerente com o que ela prega.
Isso não significa que toda pessoa que faz um comentário insensível seja um agressor, nem que qualquer comportamento sexual considerado errado por um cristão seja equivalente a estupro. Confundir essas coisas atrapalha a conversa. A pergunta central aqui é outra: estamos respeitando os limites e a dignidade das pessoas ou criando desculpas pra quem os viola?
Uma resposta cristã começa por reconhecer o mal sem diminuir o que aconteceu. Quem sofreu violência precisa ser ouvido com respeito, ter sua segurança considerada e receber ajuda adequada. Quem é acusado deve ser tratado com justiça, e os fatos devem ser apurados pelas autoridades competentes. Proteção, verdade e justiça não são objetivos opostos.
Portanto, a cultura do estupro existe onde a violência sexual encontra desculpas, silêncio ou indiferença. Enfrentá-la é recusar essas atitudes e agir de acordo com um princípio bíblico simples: nenhuma pessoa é um objeto, e ninguém tem o direito de violentá-la.