A diferença está na pergunta que cada leitura destaca. Uma leitura cristocêntrica procura entender como uma passagem do Antigo Testamento fala de Cristo ou se relaciona com ele. Uma leitura cristotélica pergunta como aquela passagem, mesmo falando primeiro de pessoas e acontecimentos do seu próprio tempo, se encaixa na história que Deus conduziu até Cristo. “Cristotélica” vem da ideia de *finalidade*: Cristo é aquele em quem a história encontra seu cumprimento.
As duas leituras não precisam ser rivais. Ambas levam a sério o ensino do Novo Testamento de que as Escrituras anteriores a Jesus apontam pra ele (Lucas 24:27, 44-47). A diferença aparece principalmente quando perguntamos: de que modo esta passagem aponta pra Cristo? Ela fala dele diretamente? Ou fala de algo real no passado que, mais tarde, ganha um sentido mais completo por causa dele?
Pense na promessa feita a Davi em 2 Samuel 7. Deus diz que um descendente dele seria rei e que seu reino seria estabelecido. A promessa dizia respeito à família real de Davi e tinha importância praquele momento da história de Israel. Ao mesmo tempo, o Novo Testamento apresenta Jesus como o descendente de Davi cujo reinado cumpre essa promessa de maneira definitiva (Lucas 1:32-33). Não precisamos apagar o significado que a promessa tinha pra Davi a fim de reconhecer seu cumprimento em Jesus.
Outro exemplo ajuda a ver por que é importante prestar atenção ao contexto. Em Oseias 11:1, Deus relembra que chamou seu “filho”, Israel, para fora do Egito. O profeta está falando de um acontecimento passado, não fazendo ali uma previsão direta de que o menino Jesus viajaria ao Egito. Mesmo assim, Mateus 2:14-15 relaciona essas palavras à volta de Jesus do Egito. Mateus vê uma correspondência: Jesus, o Filho, passa por uma experiência que lembra a história de Israel. A leitura cristotélica costuma chamar atenção pra esse caminho entre o sentido da passagem em Oseias e o uso que Mateus faz dela.
Isso não quer dizer que nenhuma passagem do Antigo Testamento fale do Messias de modo mais direto. Também não quer dizer que toda menção a Deus no Antigo Testamento deva ser identificada automaticamente como uma aparição de Jesus. Em Êxodo 3, por exemplo, Deus se revela a Moisés na sarça ardente. A passagem não identifica separadamente o Filho como aquele que aparece ali. Um cristão pode ler esse relato à luz do que o Novo Testamento ensina sobre Jesus, mas precisa distinguir essa reflexão posterior daquilo que Êxodo afirma expressamente.
O cuidado, portanto, vale pros dois lados. Se procurarmos Jesus em cada detalhe sem prestar atenção ao contexto, podemos fazer o texto dizer mais do que ele diz. Se ficarmos apenas no que os primeiros ouvintes conseguiam perceber, podemos deixar de lado as relações que o próprio Novo Testamento nos ensina a enxergar.
Em poucas palavras: a leitura cristocêntrica enfatiza Cristo como chave para compreender as Escrituras; a cristotélica enfatiza como as Escrituras caminham até seu cumprimento nele, respeitando o que cada passagem dizia no seu contexto. As duas perguntas são úteis: *o que Deus estava dizendo naquele momento?* E *como isso se relaciona com o que ele fez em Jesus?*