Não há evidência de que os cristãos tenham reescrito a Bíblia para mudar seus ensinamentos centrais. Isso não quer dizer que todas as cópias antigas sejam idênticas. Existem diferenças entre manuscritos, porque os textos foram copiados à mão durante muitos séculos. A questão é se essas diferenças mostram uma alteração deliberada e generalizada da mensagem. As evidências que temos não mostram isso.
Essa pergunta aparece muitas vezes numa conversa entre cristãos e muçulmanos. O Alcorão fala com respeito da Torá e do Evangelho, mas discorda do Novo Testamento em pontos importantes sobre Jesus. Por isso, alguns muçulmanos entendem que a mensagem dada por Deus era verdadeira, mas que os textos preservados pelos cristãos foram alterados. É importante fazer uma distinção: uma coisa é dizer que alguém interpretou mal uma revelação; outra é dizer que mudou o texto dela. A segunda afirmação precisa de provas sobre quando, onde e como a mudança aconteceu.
No caso do Novo Testamento, temos manuscritos anteriores ao surgimento do Islã, no século 7. Alguns são fragmentos antigos; outros contêm grandes partes do texto. Temos também escritos de cristãos dos primeiros séculos que citam passagens bíblicas. Assim, não dependemos apenas de cópias feitas depois de Maomé pra saber o que os cristãos liam antes dele. Quanto ao Antigo Testamento, os Manuscritos do Mar Morto incluem textos bíblicos copiados muitos séculos antes de Cristo e ajudam a comparar como esses livros foram transmitidos ao longo do tempo.
Essas comparações também nos obrigam a ser honestos: há variações reais. Algumas são pequenas, como diferenças de escrita ou palavras trocadas de lugar. Outras envolvem trechos maiores. O final longo de Marcos, por exemplo, não aparece em alguns dos manuscritos mais antigos. Por isso, muitas Bíblias modernas avisam o leitor sobre essa dúvida. Não seria correto dizer que cada palavra de cada cópia antiga é igual. Mas também não seria correto concluir, a partir dessas variações, que os cristãos substituíram a mensagem bíblica por outra.
O ponto principal sobre Jesus deixa isso mais claro. Os textos cristãos antigos já apresentam sua morte, ressurreição e importância pra salvação. Paulo, escrevendo no primeiro século, trata a morte e a ressurreição de Jesus como parte central da mensagem que havia recebido e anunciado (1 Coríntios 15:3-8). Não há evidência de uma versão anterior do Novo Testamento que ensinasse o contrário e que depois tivesse sido trocada pela versão conhecida hoje.
E o que o Alcorão diz? Passagens como a surata 5:46 falam da Torá e do Evangelho como revelações dadas por Deus. Muçulmanos e cristãos, porém, entendem de maneiras diferentes como essas referências se relacionam com os livros da Bíblia que temos hoje. Da mesma forma, não basta citar afirmações do Alcorão sobre a palavra de Deus não ser mudada e concluir que não pode haver diferença entre manuscritos bíblicos. É preciso considerar o que cada passagem está dizendo no seu contexto.
Pra um cristão, a confiança na Bíblia não exige fingir que os copistas nunca cometeram erros. Ela envolve reconhecer essas diferenças, examiná-las com cuidado e perguntar o que os textos mais antigos realmente dizem. Passagens como 2 Timóteo 3:16-17 mostram a importância das Escrituras pra fé cristã, mas não devem ser usadas como se dispensassem essa investigação histórica.
Portanto, se a pergunta é se houve erros de cópia e diferenças entre manuscritos, sim, houve. Se a pergunta é se há provas de que os cristãos corromperam a Bíblia, mudando de forma geral sua mensagem sobre Jesus, não há. As discordâncias entre a Bíblia e o Alcorão precisam ser discutidas pelo que cada um ensina, não resolvidas apenas com a acusação de que um dos textos foi alterado.