Um cristão pode se preparar pra emergências. Guardar água e alimentos, ter um plano pra cuidar da família ou aprender a viver com menos recursos pode ser uma decisão prudente. Mas isso é diferente de organizar a vida em torno do medo de uma catástrofe ou de tentar garantir, por conta própria, a sobrevivência no dia do juízo final.
Jesus ensinou que ninguém sabe o dia nem a hora de sua volta (Mateus 24:36). Ele também disse que guerras e outras notícias assustadoras não devem nos levar a concluir que o fim chegou imediatamente (Mateus 24:6). Por isso, o cristão não precisa tratar cada crise como uma confirmação de que encontrou a data do fim. O chamado de Jesus é pra estar pronto espiritualmente: viver em fidelidade a Deus, e não tentar prever os acontecimentos ou montar um estoque capaz de nos proteger de tudo (Mateus 24:42-44).
Isso não significa que planejar seja falta de fé. Quando José soube que haveria anos de fome no Egito, organizou o armazenamento de alimentos durante os anos de fartura. Depois, aqueles mantimentos serviram pra alimentar muita gente (Gênesis 41:33-36, 46-57). O caso é diferente do nosso: José agiu depois de Deus revelar uma fome específica. Ainda assim, a passagem mostra que tomar providências práticas diante de uma necessidade real não é errado.
A pergunta importante é: o que essa preparação está fazendo com a nossa vida? Uma reserva pra atravessar uma falta de energia, por exemplo, pode ser sensata. Ela pode até permitir que ajudemos um vizinho. Mas, se a preocupação com desastres passa a consumir nosso tempo, alimentar suspeitas de todos e nos afastar das pessoas, algo saiu do lugar. Jesus nos ensinou a confiar no cuidado do Pai em vez de viver dominados pela ansiedade (Mateus 6:25-34). E nos chamou a amar o próximo, não apenas a proteger os nossos interesses (Marcos 12:31; Filipenses 2:4).
Também não dá pra dizer que toda pessoa que armazena suprimentos age por medo ou falta de fé. As circunstâncias e os motivos variam. Ao mesmo tempo, uma boa intenção não torna qualquer atitude correta. O modo de se preparar também importa: ele deve ser honesto, responsável e compatível com o amor ao próximo.
Então, não há na Bíblia uma ordem pra que os cristãos se tornem sobrevivencialistas, nem uma proibição de se preparar pra emergências. Podemos agir com prudência, sem entregar nossa paz à ideia de que precisamos controlar o futuro. E, se uma crise vier, o que guardamos não precisa servir apenas pra nós: também pode ser uma maneira de cuidar de quem estiver precisando.