Foi uma discussão entre cristãos dos primeiros séculos sobre quando celebrar a Páscoa cristã. Alguns a celebravam no dia 14 de nisã, data ligada à Páscoa judaica, mesmo que caísse no meio da semana. Outros defendiam que a celebração principal deveria acontecer sempre num domingo, dia em que Jesus ressuscitou.
O nome complicado vem justamente desse número: *quartodecimano* significa “do décimo quarto dia”. A dúvida não era se a morte e a ressurreição de Jesus eram importantes. Todos concordavam que eram. A diferença estava em qual data usar pra lembrá-las a cada ano.
O dia 14 de nisã fazia sentido pra muitos cristãos porque, no calendário judaico, era o dia marcado pra Páscoa (Levítico 23:5). Jesus morreu durante o período dessa festa, e o Novo Testamento liga sua morte ao significado da Páscoa: Paulo chama Cristo de nosso cordeiro pascal (1 Coríntios 5:7). Já os cristãos que preferiam o domingo davam destaque ao dia da ressurreição de Jesus, que ocorreu no primeiro dia da semana (João 20:1).
A questão ficou conhecida porque cada grupo dizia ter recebido sua prática dos cristãos que vieram antes dele. Por volta de meados do segundo século, Policarpo, líder da igreja em Esmirna, conversou sobre isso com Aniceto, líder da igreja em Roma. Eles não chegaram a um acordo sobre a data, mas continuaram em comunhão. Mais tarde, perto do fim daquele século, a discussão se agravou: Polícrates, bispo de Éfeso, defendeu a prática do dia 14, enquanto Vítor, bispo de Roma, tentou romper a comunhão com as igrejas que a seguiam. Outros líderes cristãos criticaram essa atitude de Vítor.
Com o tempo, prevaleceu entre a maior parte das igrejas a celebração no domingo. O Concílio de Niceia, em 325, apoiou uma celebração comum nesse dia, embora seja impreciso dizer que o concílio deixou registrada, nos termos exatos usados hoje, toda a regra de cálculo da data da Páscoa.
O ponto mais importante pra nós é distinguir o acontecimento celebrado da data escolhida pra celebrá-lo. A morte e a ressurreição de Jesus são centrais pra fé cristã (1 Coríntios 15:3-4). Mas o Novo Testamento não dá à igreja uma ordem pra celebrar a Páscoa anual no dia 14 de nisã nem uma ordem pra celebrá-la num domingo específico. Romanos 14:5-6 não trata diretamente dessa controvérsia histórica, mas apresenta um princípio útil: diferenças sobre a importância dada a certos dias não devem, por si só, levar cristãos a desprezar uns aos outros.
Assim, a Controvérsia Quartodecimana foi uma disputa real e, em alguns momentos, séria sobre o calendário da Páscoa — não uma disputa sobre se Jesus morreu e ressuscitou. O encontro de Policarpo e Aniceto mostra que era possível discordar da data sem deixar de reconhecer uns aos outros como irmãos em Cristo.