João não está dizendo que um cristão nunca mais comete um pecado. Ele está dizendo que quem pertence a Cristo não pode tratar o pecado como seu modo normal de viver, sem arrependimento e sem desejo de mudar.
A própria carta deixa isso claro. João diz que nos enganamos se afirmamos não ter pecado (1 João 1:8). E escreve aos cristãos que, se alguém pecar, tem Jesus Cristo como aquele que fala ao Pai em seu favor (1 João 2:1). Portanto, ele sabe que o crente ainda pode pecar. Sua intenção em 1 João 3:6 e 5:18 não é tirar a esperança de quem está lutando contra o pecado.
O que João rejeita é outra coisa: a ideia de que alguém pode dizer que conhece Jesus e, ao mesmo tempo, continuar praticando o pecado como se isso não tivesse importância. Nos versículos ao redor de 1 João 3:6, ele contrapõe duas maneiras de viver: fazer o que é certo e viver na prática do pecado (1 João 3:7-10). A questão não é um erro isolado, mas a direção da vida da pessoa.
Isso também ajuda a entender 1 João 3:9. João diz que quem nasceu de Deus não pode continuar pecando porque a vida que recebeu de Deus permanece nele. Não significa que pecar se tornou impossível em qualquer ocasião. Significa que a nova vida recebida de Deus não combina com uma entrega tranquila e persistente ao pecado. Quando o crente peca, ele tem motivo pra reconhecer o erro, confessá-lo e buscar obedecer a Deus, em vez de defendê-lo ou fingir que não aconteceu (1 João 1:9).
Por isso, a pergunta mais útil não é: “Já consegui passar tanto tempo sem pecar?” João não estabelece uma quantidade de pecados nem promete que todo cristão verá uma melhora constante, fácil de medir. A pergunta é: como eu reajo ao pecado? Eu o justifico e quero continuar nele, ou reconheço que ele está errado e volto a Cristo, mesmo quando a luta é difícil?
Esses versículos trazem, ao mesmo tempo, um alerta e um consolo. São um alerta pra quem afirma seguir Jesus, mas escolhe viver em desobediência sem querer se arrepender. E são um consolo pra quem caiu e está aflito por isso: a luta contra o pecado não prova, por si só, que essa pessoa não pertence a Deus. João escreveu pra que os que creem em Jesus saibam que têm a vida eterna (1 João 5:13), não pra que confundam essa certeza com a ideia de que já são perfeitos.