O Concílio de Éfeso foi uma reunião de líderes cristãos realizada no ano 431. A pergunta principal era esta: quem era Jesus, desde o seu nascimento? A discussão surgiu porque Nestório, bispo de Constantinopla, se opunha a chamar Maria de *Theotokos*, expressão grega geralmente traduzida como “Mãe de Deus”. Ele temia que esse nome desse a entender que Maria havia dado origem à natureza divina de Jesus.
É importante entender o que estava — e o que não estava — em discussão. Ninguém precisava afirmar que Deus começou a existir quando Jesus nasceu. A questão era se o menino que Maria deu à luz era, desde o começo, o próprio Filho de Deus que se tornou humano, ou se a maneira de falar sobre ele acabava separando demais sua humanidade e sua divindade.
Cirilo de Alexandria, principal opositor de Nestório, defendia que Jesus é uma só pessoa: o Filho de Deus que se fez homem. Maria deu à luz Jesus segundo sua humanidade; ela não é a origem de Deus. Ainda assim, aquele que nasceu dela não era uma pessoa humana separada do Filho de Deus. É nesse sentido que Cirilo defendia o título *Theotokos*.
A Bíblia ajuda a entender por que essa distinção importava. João diz que aquele que já existia com Deus e era Deus se tornou carne (João 1:1, 14). E, ao anunciar o nascimento de Jesus a Maria, o anjo o chama de Filho de Deus (Lucas 1:35). Portanto, a fé cristã não fala de um homem que só mais tarde se uniu a Deus, mas do Filho de Deus que realmente veio viver como ser humano.
O imperador Teodósio II convocou o concílio pra tratar da disputa. A reunião foi bastante conturbada. Cirilo iniciou os trabalhos antes da chegada de alguns bispos favoráveis a Nestório, e esses bispos, quando chegaram, realizaram uma reunião rival. Por isso, não foi uma decisão tomada num ambiente tranquilo ou com todos os envolvidos reunidos ao mesmo tempo. O concílio conduzido por Cirilo condenou os ensinamentos atribuídos a Nestório e o retirou do cargo de bispo.
É preciso ter cuidado ao descrever a posição pessoal de Nestório. Historiadores discutem até que ponto ele realmente ensinava a existência de duas pessoas distintas em Cristo. O que o concílio rejeitou foi uma forma de explicar Jesus que, a seu ver, separava demais o Filho de Deus do homem Jesus. A afirmação que queria proteger era simples, mesmo sendo profunda: Jesus é plenamente Deus e plenamente humano, sem deixar de ser uma só pessoa.
O concílio também condenou o pelagianismo, ensino ligado à ideia de que o ser humano poderia obedecer a Deus e alcançar a justiça por suas próprias forças, sem depender da graça divina. Isso entrava em conflito com o ensino bíblico de que o pecado atingiu a humanidade e de que somos salvos pela graça de Deus, não por mérito próprio (Romanos 5:12; Efésios 2:8-9).
Assim, embora o nome de Maria tenha ocupado boa parte da discussão, o centro do Concílio de Éfeso era Jesus. Chamar Maria de “Mãe de Deus” naquele debate não significava dizer que ela criou Deus, nem estabelecia por si só outros ensinamentos posteriores sobre Maria. Era uma maneira de afirmar que o filho que ela deu à luz era o Filho de Deus feito homem. O concílio ajudou a estabelecer essa afirmação, mas a maneira conflituosa como ocorreu também contribuiu pra divisões duradouras entre cristãos.