Quando se fala no “Concílio de Cartago”, geralmente se está falando de uma reunião de líderes cristãos realizada em 397 d.C., na cidade de Cartago, no norte da África. Ela ficou conhecida principalmente porque apresentou uma lista dos livros que deveriam ser lidos como Escritura nas igrejas daquela região.
Mas houve vários concílios em Cartago, em épocas diferentes, e eles trataram de assuntos diferentes. Por isso, a resposta depende de qual reunião temos em mente.
No caso da reunião de 397, a questão mais conhecida é a dos livros da Bíblia. A lista incluía os 27 livros do Novo Testamento que encontramos hoje nas Bíblias cristãs. Também incluía livros do Antigo Testamento sobre os quais os cristãos ainda discordam, como os livros dos Macabeus. Católicos os recebem como parte da Bíblia; protestantes não os consideram Escritura inspirada. Além disso, as listas antigas nem sempre dividiam e nomeavam os livros do mesmo jeito que fazemos hoje. Por isso, comparar apenas o número de livros pode causar confusão.
Isso significa que o concílio *criou* a Bíblia? Não. Os livros bíblicos já existiam e eram usados pelas igrejas muito antes de 397. O concílio registrou quais livros os líderes reunidos ali reconheciam para a leitura na igreja. Sua decisão teve importância histórica, mas não foi uma reunião de representantes de toda a igreja cristã.
A diferença entre as Bíblias protestantes e católicas também não começou em Cartago. Já havia opiniões diferentes, especialmente sobre alguns livros do Antigo Testamento. Jerônimo, por exemplo, distinguia os livros encontrados na Bíblia hebraica de outros livros lidos pelos cristãos. Agostinho aceitava uma lista mais ampla. Assim, não seria correto dizer que havia uma posição única entre todos os cristãos e que Cartago simplesmente a contrariou.
Para os protestantes, a autoridade de um livro bíblico não vem do voto de um concílio. A igreja pode reconhecer as Escrituras, mas não é ela que as torna inspiradas. Essa distinção ajuda a entender a importância de Cartago sem atribuir àquela reunião mais autoridade do que ela teve.
Em resumo: Cartago sediou vários concílios; o de 397 é lembrado sobretudo por sua lista de livros bíblicos. Ele não criou a Bíblia nem encerrou, para todos os cristãos, a discussão sobre os livros do Antigo Testamento.