O Concílio de Calcedônia, realizado em 451 d.C., ficou conhecido por responder a uma pergunta decisiva: se Jesus é Deus e também homem, como essas duas realidades se unem nele? A resposta do concílio foi que Jesus Cristo é uma só pessoa, plenamente Deus e plenamente homem. Sua natureza divina não deixou de ser divina, e sua natureza humana não foi diminuída ou absorvida.
Essa pergunta não surgiu do nada. Os cristãos já afirmavam a divindade de Jesus, mas precisavam explicar também sua humanidade. Os Evangelhos mostram Jesus sentindo fome e cansaço, sofrendo e morrendo (Mateus 4:2; João 4:6; 19:30). Ao mesmo tempo, o Novo Testamento fala dele como aquele que existia antes de se tornar homem e que veio ao mundo como Deus conosco (João 1:1, 14; Mateus 1:23). Calcedônia procurou preservar tudo o que essas passagens ensinam, sem resolver a dificuldade negando um dos lados.
O concílio rejeitou, por isso, duas maneiras de entender Jesus que considerou equivocadas. De um lado, não se pode falar dele como se o Filho de Deus e o homem Jesus fossem duas pessoas separadas. De outro, não se pode dizer que, ao se tornar homem, sua humanidade foi misturada à divindade ou deixou de ser uma humanidade verdadeira. O mesmo Jesus que nasceu, viveu entre as pessoas e morreu é o Filho de Deus.
Isso importa pra fé cristã porque a salvação não é obra de alguém que apenas parecia humano, nem de um homem comum agindo sozinho. O Filho de Deus realmente se tornou um de nós. Ele pôde representar seres humanos porque compartilhou nossa humanidade; e sua obra tem o valor que o Novo Testamento atribui a ela porque ele é o Filho de Deus (Hebreus 2:14-17; Colossenses 1:19-20). O concílio não pretendia explicar todos os mistérios da encarnação, mas deixar claro o que os cristãos não deveriam perder de vista ao falar de Jesus.
Calcedônia também teve consequências na história da igreja. Sua definição não foi aceita por todas as comunidades cristãs, e essa divergência contribuiu pra separação das igrejas hoje chamadas ortodoxas orientais, como a copta e a armênia. O concílio ainda tomou decisões sobre a posição de Constantinopla em relação a Roma; uma delas foi rejeitada pelo bispo de Roma. Essas disputas fizeram parte de tensões que continuaram por séculos, mas seria impreciso dizer que Calcedônia causou, por si só, a separação entre as igrejas de Roma e Constantinopla em 1054.
Em poucas palavras, o significado principal de Calcedônia foi este: ajudar a igreja a falar de Jesus sem negar nem sua plena divindade nem sua plena humanidade, e sem dividir em duas pessoas aquele que o Novo Testamento apresenta como o único Senhor Jesus Cristo.