Porque, naquele momento, ele ainda não enxergava com clareza. A visão havia começado a voltar, mas as pessoas pareciam vultos altos e indistintos. Ele percebia que eram pessoas porque se moviam, mas não conseguia vê-las direito. Depois, Jesus tocou seus olhos novamente, e o homem passou a enxergar claramente (Marcos 8:22-25).
O que Marcos não explica é por que Jesus escolheu curá-lo em duas etapas. O relato não diz que faltou poder a Jesus, nem que o homem precisava demonstrar mais fé. Essas seriam explicações que vão além do que o texto conta. Marcos mostra que Jesus perguntou ao homem o que ele conseguia ver, ouviu sua resposta e completou a cura.
Há, porém, um detalhe no contexto que ajuda a entender por que Marcos pode ter contado esse milagre dessa maneira. Pouco antes, Jesus havia perguntado aos discípulos se eles ainda não entendiam o que ele vinha fazendo (Marcos 8:17-21). Logo depois da cura, Pedro reconhece que Jesus é o Cristo. Mesmo assim, quando Jesus fala que vai sofrer e morrer, Pedro rejeita essa ideia (Marcos 8:27-33). Os discípulos já percebiam quem Jesus era, mas ainda não compreendiam bem que tipo de Messias ele seria.
Por isso, muitos entendem que a cura também ajuda a ilustrar a situação dos discípulos: assim como o homem primeiro viu sem nitidez e depois viu claramente, eles estavam começando a entender Jesus, mas ainda tinham muito a aprender. Essa é uma leitura possível do lugar que o milagre ocupa no relato, não uma razão que Jesus ou Marcos tenham declarado expressamente pra cura acontecer em duas etapas.
A resposta mais segura, então, é simples: o homem viu pessoas “como árvores que andam” porque sua visão ainda estava incompleta. Jesus não o deixou assim; terminou a cura. Quanto ao motivo de ter feito isso aos poucos, a Bíblia não diz com certeza.