Depende do que queremos dizer com *coletivismo*. Se a ideia é que ninguém deve pensar só em si mesmo e que precisamos cuidar uns dos outros, a Bíblia concorda. Mas, se a ideia é que as necessidades de um grupo permitem tratar uma pessoa como se ela não tivesse valor ou direitos, a Bíblia não concorda.
Jesus ensinou seus seguidores a amar o próximo, e Paulo os orientou a considerar também os interesses dos outros, não apenas os seus próprios (Mateus 22:39; Filipenses 2:3-4). Isso aparece de forma muito concreta na igreja do início. Alguns cristãos repartiam seus bens pra que ninguém passasse necessidade (Atos 2:44-45; 4:32-35). Ao mesmo tempo, esse relato não estabelece que todos eram obrigados a entregar suas propriedades. Pedro deixou claro que uma propriedade continuava sob a responsabilidade de seu dono, que podia decidir o que fazer com ela (Atos 5:4).
A Bíblia também não diz que o bem de um grupo torna qualquer decisão justa. Ela proíbe acompanhar a maioria pra fazer o mal (Êxodo 23:2) e manda proteger quem pode ser facilmente oprimido, como o estrangeiro, o órfão e a viúva (Zacarias 7:9-10). Uma pessoa não perde seu valor diante de Deus só porque é uma entre muitas. E cada um responde por seus próprios atos; a culpa não pode ser atribuída a alguém simplesmente por pertencer a um grupo (Ezequiel 18:20).
Isso não significa que toda decisão precise beneficiar cada pessoa da mesma maneira. Às vezes, uma comunidade precisa tomar medidas pra proteger os outros. A Bíblia reconhece, por exemplo, a responsabilidade das autoridades de conter o mal (Romanos 13:3-4). Mas proteger a comunidade é diferente de justificar uma injustiça com a frase “é pelo bem de todos”. Uma decisão precisa ser avaliada também pelo modo como trata as pessoas afetadas por ela.
Por isso, o exemplo de Jesus não cabe numa conta em que o sofrimento de um vale menos que o benefício de muitos. Ele deu a própria vida voluntariamente por outros (João 10:17-18; Romanos 5:8). Seu exemplo nos chama a servir, não a decidir que outra pessoa deve ser sacrificada por nossa conveniência.
Em resumo, a Bíblia nos ensina a buscar o bem dos outros sem desprezar o valor de cada pessoa. Ela corrige tanto o egoísmo de quem só cuida de si quanto a ideia de que a maioria pode fazer o que quiser com a minoria.