Levítico 11:6 chama a lebre de animal impuro e, em muitas traduções, diz que ela “rumina”. A dúvida faz sentido: lebres não ruminam como vacas. A vaca traz alimento do estômago de volta à boca pra mastigá-lo de novo; a lebre não faz isso.
Pra entender o versículo, ajuda olhar primeiro para o que aquela lei queria ensinar. Deus estava dando aos israelitas regras sobre quais animais podiam comer. Entre os animais terrestres citados ali, os permitidos precisavam ter duas características: casco dividido e ruminação. A lebre não tem casco dividido e, por isso, ficava fora da alimentação permitida, conforme Levítico 11:3-6. O texto trata de uma regra alimentar, não de uma explicação sobre o funcionamento do estômago dos animais.
Mas isso ainda deixa a pergunta: por que dizer que a lebre rumina? Há uma diferença entre a linguagem usada pra reconhecer um animal e o sentido científico que damos hoje à palavra *ruminar*. Lebres mastigam repetidamente e também comem um tipo especial de fezes produzido pelo próprio corpo. Assim, aproveitam novamente nutrientes de um alimento que já passou por parte da digestão. Esse processo é real, mas não é a ruminação das vacas: elas não trazem alimento do estômago de volta à boca.
Por isso, não seria correto afirmar que a lebre é ruminante no sentido da biologia atual. Também não é necessário concluir, só por causa da tradução “rumina”, que o texto bíblico pretendia fazer essa afirmação científica. A explicação mais cuidadosa é que a lei usa uma descrição antiga e prática dos animais, enquanto a palavra portuguesa *ruminar* pode levar o leitor de hoje a pensar num processo bem mais específico.
Então, há uma dificuldade real de linguagem nesse versículo, e vale reconhecê-la. Ela aparece quando lemos uma descrição antiga como se fosse uma classificação biológica moderna. O ponto da lei, porém, permanece claro: a lebre não se encaixava entre os animais que os israelitas podiam comer.