Não há uma causa única que explique todos os casos. O abuso acontece quando alguém decide explorar uma pessoa vulnerável. Mas, dentro de uma igreja, ele pode continuar por anos quando o agressor tem acesso às vítimas, é visto como alguém acima de suspeitas e não é impedido de agir depois das primeiras denúncias. Em casos envolvendo padres católicos, investigações revelaram situações em que líderes desacreditaram vítimas, trataram denúncias em segredo ou transferiram acusados sem proteger as pessoas que encontrariam no novo lugar.
É importante distinguir duas coisas: o que levou um indivíduo a abusar e o que permitiu que ele continuasse abusando. Não temos como apontar a motivação de todos os agressores. Já o silêncio, a falta de fiscalização e a proteção da reputação da instituição ajudam a explicar por que certos abusos se repetiram. Quando a preocupação em evitar um escândalo fica acima da segurança de uma criança, o agressor encontra espaço pra agir de novo.
Algumas pessoas apontam o celibato obrigatório dos padres como causa do problema. A Bíblia permite que uma pessoa permaneça solteira pra se dedicar ao serviço de Deus, mas também mostra líderes da igreja que podiam ser casados (1 Coríntios 7:32-35; 1 Timóteo 3:2-5). Por isso, cristãos evangélicos questionam a exigência de celibato pra todos os ministros. Mas isso não significa que o celibato cause abuso sexual de crianças. A maioria das pessoas celibatárias não abusa de ninguém, e abusos também acontecem em ambientes onde os líderes podem se casar. Da mesma forma, não há motivo pra confundir abuso de crianças com orientação sexual.
A Bíblia é clara quanto à responsabilidade de quem exerce liderança religiosa. Líderes devem ser pessoas de caráter íntegro, não usar sua posição pra dominar os outros e cuidar dos mais vulneráveis (1 Timóteo 3:2-7; 1 Pedro 5:2-3). Jesus também falou com extrema seriedade sobre fazer mal a uma criança (Mateus 18:6). Nenhum cargo religioso diminui a gravidade de um crime nem dispensa a igreja de agir com justiça.
Por isso, diante de uma denúncia de abuso, a prioridade precisa ser proteger a vítima, levar o caso às autoridades competentes e impedir que o acusado tenha acesso a possíveis vítimas enquanto os fatos são apurados. Encobrir, pressionar a pessoa a ficar calada ou simplesmente transferir o acusado não resolve o problema; pode expor outras pessoas ao mesmo perigo. E não se deve atribuir a todos os padres a culpa pelos crimes de alguns.
Em resumo, a pergunta não se resolve culpando uma regra religiosa ou todos os membros de uma igreja. Os abusos são responsabilidade de quem os comete; sua repetição também exige examinar quem ignorou denúncias, deixou de proteger vítimas ou ajudou a esconder os fatos. Uma igreja que deseja seguir a Cristo precisa levar a verdade a sério, cuidar de quem sofreu e jamais colocar sua própria reputação acima da segurança das pessoas.