Carlos Magno ajudou a fortalecer a Igreja no oeste da Europa, mas também aproximou tanto a Igreja do poder político que deixou um problema sério: em algumas regiões, a fé cristã passou a ser imposta pela força. Seu impacto, portanto, teve dois lados. Ele apoiou a educação e a organização da Igreja, mas também usou seus exércitos pra expandir um reino que se apresentava como cristão.
Carlos Magno governou os francos a partir de 768 e, depois da morte de seu irmão, tornou-se o único rei em 771. Ao longo de seu governo, conquistou grande parte da Europa ocidental. No ano 800, o papa Leão III o coroou imperador em Roma. Isso deu força à ideia de que o governante e a Igreja deveriam trabalhar juntos na condução da sociedade cristã ocidental. Também aumentou a influência do papa nos assuntos políticos e a do imperador nos assuntos da Igreja.
Um resultado importante desse governo foi o incentivo ao ensino. Carlos Magno reuniu estudiosos, apoiou escolas ligadas à corte e a instituições religiosas e promoveu a cópia de manuscritos. Esse trabalho ajudou a preservar textos bíblicos, escritos cristãos e outras obras antigas. Ele também procurou melhorar a formação do clero e tornar mais uniformes algumas práticas da Igreja em seus territórios. Nem tudo isso foi feito pessoalmente por ele, mas aconteceu com seu apoio e sob seu governo.
O lado mais grave aparece nas conquistas militares, especialmente nas guerras contra os saxões. Carlos Magno não queria apenas que esses povos aceitassem seu domínio político. Ele também exigiu que abandonassem suas práticas religiosas e recebessem o batismo. Em certos períodos, a recusa podia ser punida com a morte. Assim, um gesto que deveria expressar a fé de uma pessoa podia se tornar uma exigência do Estado.
Isso contrasta com a maneira como Jesus mandou anunciar sua mensagem. Ele enviou seus seguidores pra fazer discípulos, ensinando as pessoas a obedecer ao que ele havia ordenado (Mateus 28:19-20). A fé cristã envolve confiança em Cristo, não apenas o cumprimento de uma ordem dada por um governante (Efésios 2:8-9). Um exército pode obrigar alguém a passar por uma cerimônia, mas não pode fazer essa pessoa crer.
É importante não atribuir a Carlos Magno tudo o que aconteceu depois dele. O Sacro Império Romano, como instituição medieval, se desenvolveu posteriormente; chamá-lo simplesmente de seu primeiro imperador pode dar uma impressão errada. Da mesma forma, as Cruzadas ocorreram séculos depois e tiveram suas próprias causas. Ainda assim, seu reinado foi decisivo pra consolidar uma relação estreita entre poder político e autoridade religiosa na Europa ocidental.
Por isso, seu legado precisa ser visto com honestidade. O apoio ao ensino e à preservação de textos trouxe benefícios duradouros. Mas as conversões forçadas mostram o perigo de confundir a expansão de um governo com a missão da Igreja. Carlos Magno teve grande poder pra mudar a história da Igreja; nem toda mudança que promoveu, porém, estava de acordo com o modo como Jesus ensinou seus seguidores a agir.