A Bíblia não tem uma página dizendo: “Estes são todos os livros que fazem parte de mim.” Então a pergunta é justa. Como os cristãos chegaram à lista que usamos hoje?
A resposta começa com uma distinção: um livro não passou a ser Palavra de Deus quando alguém o colocou na Bíblia. Se Deus falou por meio daquele livro, ele já tinha essa autoridade desde que foi escrito. O que o povo de Deus precisou fazer foi reconhecer quais escritos tinham essa origem. A lista desses livros recebe o nome de *cânon*.
Isso não significa que a escolha foi feita sem critérios, nem que todos os detalhes sejam simples. Significa que a igreja não podia dar autoridade divina a um texto por votação. Ela podia examinar os escritos que havia recebido e reconhecer aqueles que deveriam ser lidos como Escritura.
No caso do Antigo Testamento, os primeiros cristãos receberam as Escrituras do povo judeu. Jesus e os apóstolos tratavam esses escritos como Palavra de Deus. Em Lucas 24:44, por exemplo, Jesus se refere à Lei de Moisés, aos Profetas e aos Salmos — uma maneira de falar das grandes partes das Escrituras judaicas. A Bíblia protestante apresenta esse conteúdo em 39 livros. Na organização judaica, alguns deles são reunidos, por isso a contagem é diferente, embora o conteúdo desses livros corresponda.
No caso do Novo Testamento, os escritos surgiram no tempo dos apóstolos, as testemunhas que Jesus enviou pra anunciar sua mensagem. Por isso, a ligação de um livro com os apóstolos era fundamental. Os cristãos também consideravam se seu ensino estava de acordo com a mensagem de Jesus que haviam recebido e se o escrito era conhecido e usado nas igrejas. Algumas cartas eram reconhecidas desde cedo; sobre outros livros houve discussão por mais tempo. A lista dos 27 livros do Novo Testamento não apareceu de uma vez só. Ela reflete um processo de reconhecimento, não a decisão de criar novos livros sagrados séculos depois.
A própria Bíblia mostra esse reconhecimento acontecendo, embora não forneça uma lista completa. Em 2 Pedro 3:15-16, as cartas de Paulo são mencionadas ao lado das demais Escrituras. Isso não resolve sozinho a pergunta sobre cada livro, mas mostra que escritos apostólicos já estavam sendo tratados com essa autoridade.
Há ainda uma diferença importante entre as Bíblias cristãs. Católicos e protestantes têm os mesmos 27 livros do Novo Testamento, mas não a mesma lista do Antigo. Os católicos incluem livros que chamam de *deuterocanônicos*, como Tobias e Sabedoria. Os protestantes não os consideram parte das Escrituras. Essa diferença envolve, entre outras questões, quais escritos do período anterior a Jesus devem ser recebidos como Escritura. Seria errado dizer que não existe nenhuma discussão sobre o cânon; também seria errado concluir que, por existir essa discussão, não podemos conhecer a mensagem da Bíblia.
E se alguém diz que a Escritura é a autoridade principal da fé, como pode recorrer à história pra saber quais são seus livros? Não há contradição necessária aí. A história nos ajuda a saber quais escritos foram transmitidos e reconhecidos; ela não precisa se tornar uma autoridade superior à Escritura pra decidir se o ensino desses escritos é verdadeiro. Conhecer o caminho pelo qual recebemos um livro não é o mesmo que dar a esse caminho o poder de transformar o livro em Palavra de Deus.
Assim, não decidimos o cânon tirando uma lista de dentro da própria Bíblia, porque essa lista não está lá. Examinamos o testemunho das Escrituras e a história de como o povo de Deus recebeu esses livros. E fazemos isso com uma convicção importante: se Deus quis falar por meio das Escrituras, não foi a igreja que tornou sua palavra verdadeira. A responsabilidade da igreja foi reconhecê-la e transmiti-la com fidelidade.