O cânon da Bíblia é o conjunto de livros reconhecidos como Escritura Sagrada. Quando alguém pergunta se um livro “faz parte do cânon”, está perguntando se ele pertence à Bíblia e deve ser recebido como Palavra de Deus. A palavra *cânon* passou a ser usada com o sentido de regra ou padrão.
Isso não quer dizer que uma reunião de líderes religiosos transformou livros comuns em Palavra de Deus. Na compreensão cristã, a autoridade das Escrituras vem de Deus, não de uma decisão humana. O trabalho das comunidades de fé foi reconhecer quais escritos deveriam ser recebidos como Escritura. O Novo Testamento, por exemplo, já mostra cristãos lendo as cartas dos apóstolos nas igrejas e tratando esses ensinamentos com autoridade (1 Tessalonicenses 5:27; 2 Pedro 3:15-16).
Como esse reconhecimento aconteceu? No caso do Antigo Testamento, os cristãos receberam as Escrituras do povo de Israel, que Jesus e os apóstolos liam e citavam. No caso do Novo Testamento, as igrejas consideravam especialmente a ligação dos escritos com os apóstolos e com as testemunhas mais próximas de Jesus, a fidelidade do seu ensino à fé recebida e seu uso entre as igrejas. Não era uma questão de um livro simplesmente parecer antigo ou mencionar Jesus. Alguns escritos cristãos antigos eram úteis, mas isso, por si só, não fazia deles Escritura.
Esse processo levou tempo. Muitos livros foram recebidos amplamente desde cedo; outros provocaram dúvidas em algumas regiões antes de serem reconhecidos de modo geral. Os concílios ajudaram a registrar publicamente esse reconhecimento, mas não inventaram, de uma vez só, o conteúdo da Bíblia. Hoje, católicos, protestantes e ortodoxos reconhecem os mesmos 27 livros do Novo Testamento.
A principal diferença entre suas Bíblias está no Antigo Testamento. As Bíblias protestantes têm 39 livros nessa parte. As católicas incluem também livros como Sabedoria e 1 e 2 Macabeus, chamados de *deuterocanônicos* pelos católicos e geralmente de *apócrifos* pelos protestantes. As tradições ortodoxas podem incluir outros livros. Por isso, não seria correto dizer que todos os cristãos concordam sobre a lista completa. A divergência diz respeito a quais escritos do Antigo Testamento devem ser recebidos como Escritura.
Há ainda uma distinção importante: dizer que os cristãos reconhecem um cânon não significa que Judas 3, sozinho, apresente uma lista de livros bíblicos. Ali, Judas fala da fé transmitida aos cristãos; ele não enumera os livros da Bíblia. Da mesma forma, a advertência de Apocalipse 22:18-19 proíbe alterar as palavras daquele livro, mas não fornece, por si só, a lista de todo o cânon.
Em resumo, o cânon responde à pergunta: “Quais livros pertencem à Bíblia?” Para a fé cristã, essa pergunta importa porque a Escritura é a referência para conhecer o ensino de Deus e examinar aquilo que se ensina em seu nome (2 Timóteo 3:16-17). Entender como os livros foram reconhecidos nos ajuda a confiar na Bíblia sem precisar imaginar que sua lista apareceu pronta numa única reunião — ou fingir que não existem diferenças entre as tradições cristãs.